Archive for the 'sociedade' Category

Erm…

Publicado ontem no DN, crónica dos Jogos Olímpicos, escrita por Rui Hortelão:

Tinham acabado de nadar, pedalar e correr durante quase duas horas. Conquistado medalhas olímpicas, dado entrevistas para o mundo inteiro e até autógrafos. Mas na hora de voltarem ao hotel, Vanessa Fernandes, Emma Snowsill e Emma Moffat continuaram iguais a elas próprias. Montaram-se nas respectivas bicicletas e partiram rampa acima. Sim, a pedalar. É talvez o único aspecto em que o triatlo remete para o passado. Em tudo o resto, a modalidade transpira juventude, inovação, organização e profissionalismo. (…) O resultado da rigorosa organização interna, do contacto profissional com o exterior e da ambição de fazer melhor está à vista: uma medalha de prata e uma atleta com a garra de Vanessa Fernandes. Quando se entusiasma, a vice-campeã olímpica até fala de si no masculino. Ontem, aconteceu várias vezes: “um gajo” isto, “um gajo” aquilo e “quando um gajo”…

Daqui se depreende que o jornalista é um homem atrás do seu tempo: usar a bicicleta como meio de transporte (além de desporto e ganha-pão) é uma cena do passado, e garra é coisa de homem.

Nem sei o que diga, sem comentários…

Se não os podes vencer, ri-te deles

Epá, temos tanto material por cá para fazer uma cena destas:-P

Cantam bem mas não me alegram

Estou farta da nova moda da responsabilidade social das empresas, e dos relatórios de sustentabilidade, e da apropriação de conceitos como bio, verde, eco, orgânico, natural, integral, etc, pelos marketeers para fazer os “consumidores” acreditarem que alguma coisa mudou. Mas na verdade, pouco mudou. À parte o branding das empresas (usam-se mais os tons verdes, castanhos, o tom “terra, e “green”), e as campanhas de marketing a lavar a imagem para parecer mais verde, mais sustentável, mais responsável relativamente à sua influência na sociedade e na Terra. It’s all bullshit, most of the times. Agora os carros são ecológicos e amigos do ambiente, os mega-centros comerciais são socialmente responsáveis, etc…

Ainda não obtive resposta do Amoreiras, por isso reenviei o mail ontem. Já a EDP dá-nos um panfleto com uma lista de comportamentos para descobrirmos se estamos a poupar energia, onde nos aconselha a «optarmos por nos deslocar a pé ou de bicicleta para distâncias curtas».

Palavras ocas? Palavras ocas?

No entanto, se eu quiser ir tratar de alguma coisa às lojas da EDP e for de bicicleta, não tenho onde a deixar lá. Não há parques de estacionamento para bicicletas. Com conhecimento de causa falo particularmente da loja no centro da vila de Oeiras e na loja da sustentabilidade no Marquês, em Lisboa. Na primeira já lá fui uma vez de bicicleta e deixei-a presa a si própria num átrio exterior à entrada, onde a podia manter debaixo de olho, dado que as paredes do edifício eram em vidro. Funcionou bem o suficiente. Na do Marquês entrei sem problemas uma vez com a Mobiky. Nunca lá fui fazer nada numa ocasião em que estivesse com a bicicleta grande, mas estive para lá ir uma vez assistir a uma conferência e planeava ir by bike. Por isso enviei-lhes um e-mail a perguntar se seria possível guardar a bicicleta algures no interior do edifício (parque, corredor, whatever), devido à ausência de infra-estruturas/serviços para ciclistas. Responderam-se que não haveria problema, o que me deixou satisfeita. Mas não cheguei a poder aferir o sucesso da experiência porque me atrasei e já não pude ir à conferência.

Imaginem um big evento sobre empresas e serviços “verdes” em que a organização não providencia caixotes com separação de resíduos para reciclagem. E em que os hot shots todos vão de carro que estacionam em cima do passeio ou do relvado. A hipocrisia dá-me vómitos. Como viver neste sistema sem entrarmos em depressão? Como interagir e participar sem nos sentirmos traidores dos nossos próprios valores de cada vez que nos associamos ao sistema ou a ele nos vemos forçados a fazer concessões in order to persevere? Talvez a solução seja o “soma”…

*sigh*

Sinto que não vale a pena correr atrás e tentar “vender-lhes” conceitos e valores que eles não entendem. Só perdemos tempo. Talvez a melhor solução no compto geral e para a nossa própria sanidade mental, emocional, fazer as coisas como achamos que elas devem ser feitas and then justtalk the walk“. Demonstrate, share, explain, educate, motivate! Maybe then they will come, on their own feet, and of their own will.

“UM DIA POR LISBOA - Fazer e Não Fazer: Cada vez mais casas, Cada vez menos gente”

Fui ao último, sobre a cidade e o rio, gostava de ir a este de amanhã, mas não devo conseguir. :-(

Das 18h à 01h, no Teatro S. Luís (que não tem estacionamento para bicicletas, mas dobráveis podem entrar e ficar numa espécie de bengaleiro, e que tem a estação de Metro do Chiado logo ali). Terá 3 painéis, cheio de “personalidades”:

18h - 19h30 - O despovoamento da cidade de Lisboa e a dispersão metropolitana
19h30 - 20h30 - Construção vs. reabilitação
21h - 22h - Imobiliário e direitos adquiridos vs. interesse público
22h - 23h - Debate institucional

Recomendo vivamente.

Obrigada, Mário, pelo lembrete. ;-)

Great depression

É impressão minha ou há uma nuvem gigante negra e pesada a começar a pairar por cima de nós, tugas?…

Everywhere I look, people are gloomy, going nuts, edgy. É a crise, é a crise, vamos todos passar fome e comer-nos uns aos outros no desespero das vacas magras.

O meu pai só me diz que isto anda tudo fodido da cabeça. As pessoas, as empresas, tudo disfuncional. A mãe do Bruno, que também lida com várias empresas, diz que parece que o país está fechado para obras. Em casa o discurso é de catástrofe e de prepararmo-nos para o pior, inclusive ir plantar batatas para a terrinha. Não há emprego, não há consumo, as empresas e as pessoas retraem-se de investir, de consumir, de viver, tudo à espera que a crise passe (e assim, inadvertidamente, tornando-a ainda pior).

Está tudo na merda e é difícil não nos deixarmos contaminar com esta depressão e psicose colectiva. Ainda há pouco o meu pai me falava no cenário negro traçado pelo Expresso de hoje (que ainda não tive oportunidade de ler), e como isto está tão mau ou pior como na altura antes de Portugal se juntar à CEE, em 1986…

Claro que isto não está assim nestes tons só em Portugal, mas talvez se não tivéssemos gente mal-formada, atrasada, incompetente e corrupta a desgovernar o país na política e nos grandes grupos económicos, isto tivesse melhor aspecto…

E depois ter que aturar políticos a dizer que vão “experimentar dizer a verdade”… Olha, obrigadinha!!

Um país em que duas pessoas a trabalhar na mesma empresa podem ganhar ordenados obscenamente díspares como o top ganhar 30 a 40 vezes mais que o bottom… (havendo exemplos de 50, 70 ou mais de 200 vezes mais!!!). Quando o desejável seria 6 a 8… Que raio de sociedade é que isto reflecte? Que pesadelo de sociedade é que isto vai desenvolver?… Será que ninguém vê que isto está doente? Desequilibrado?

Um tipo ou uma empresa muito muito rica é como uma pessoa morbidamente obesa. Isso já é mau por si só, mas se essa pessoa obesa viver numa comunidade com mais 9 morbidamente obesos, uns 30 tipos com um IMC normal e depois 60 desgraçados subnutridos… That tells you something, doesn’t it?

O lucro deve ser usado para alavancar coisas que se toda a gente ganhasse sempre apenas o suficiente para as suas necessidades “normais” não haveria maneira de criar. Investigação científica, novos produtos e serviços que sirvam para melhorar a vida das pessoas, etc. Não deveria servir para ser acumulado por indivíduos e entidades que por sua vez acumulam McMansions, SUVs, jactos particulares, etc, etc, etc. Esses 10 gajos morbidamente obesos só seriam aceites face à desnutrição dos outros 60 se se estivessem a preparar para uma expedição qualquer em busca de mais fontes de comida, abrigo, whatever, para a comunidade, para a qual tivessem que acumular reservas.

*sigh*

Mais do que com medo “da crise” e das minhas já parcas expectativas de futuro sairem goradas, estou farta de ninguém me deixar sonhar um pouco e manter-me à tona da água, pelo menos. Família, media, tudo nos traça cenários negros. Assim uma pessoa nem tem já força para tentar melhorar as coisas e perseverar. Chiça.

Yeah, this banana got the blues. Dark-storm-like blues.

Free Range Kids - o vídeo

A propósito desta questão, vejam a entrevista ao miúdo e à mãe aqui. Os americanos andam mesmo um bocado paranóicos. E a paranóia já começa a chegar cá…

Free Range Kids

I was a Free Range Kid. :-) Safei-me à mania de prender os miúdos dentro de 4 paredes, de onde só saem para dentro de outras 4 paredes, fechados dentro de um carro. Foi uma conjugação de época, pais e local onde vivia. Tive espaço próprio, pude arriscar, aprender, testar. Tornei-me autónoma, desenrascada, responsável, organizada, cautelosa, curiosa. Desfrutei do imenso prazer de deambular por aí, de rua em rua, pelas casas e quintais de amigos e vizinhos, subi muitas árvores, pulei muitos muros, joguei às escondidas até à noite, conversei com amigos sentada no muro de minha casa, e no dos outros. Construí cabanas. Brinquei com carrinhos na terra. Corri pelo meio das ervas, nos campos. Andei de bicicleta por todo o lado. Partilhei com amigos descobertas, riscos, medos, aventuras, crises, problemas. Tudo na rua. Tudo sem câmaras de vigilância nem pais a controlarem-me via telemóvel nem guarda-costas.

Isto para falar deste artigo, que originou este site.

Vivam os Free Range Kids! :-)

Tab clearing

O José Rodrigues dos Santos poupa água mas não recicla. Nada. É “muito complicado” e é o que as pessoas normais (não) fazem.

Reciclagem? Pois, isso não. Nem vidro, nem plástico, nem papel? Nada? «Não, não faço. Sou uma pessoa normal». Muitas pessoas normais reciclam. «A média do cidadão não recicla o lixo. É muito complicado. Um saco é azul, outro é não sei o quê, aquilo é uma confusão»

[Via]

É por ‘role models‘ destes que o mundo (e nós que nele vivemos!) anda a ficar exaurido e envenenado.

Este artista (mas este é mesmo um artista, o JRS é mais um ‘artista‘) incorpora a sensibilização/educação/advocay nas suas performances:

[Via]

Quem não gosta de ser uma “pessoa normal” (a.k.a. irresponsável, porca, negligente) aqui no concelho de Oeiras tem a vida dificultada. O município começou por ser pioneiro, exemplar até, neste campo; tínhamos ecopontos e recolha porta-a-porta (o sistema mais eficiente, mesmo economicamente). Em Julho de 2007 o princípio do fim foi decretado. Assumi que fosse em todo o concelho, mas havia sinais que indicavam outra realidade.

Estamos em 2008 e em Porto Salvo não há recolha porta-a-porta de reciclagem (nem do lixo normal, como há muitos outros locais, com contentores individuais para cada moradia ou prédio). Em Leceia aqui a 3 km continua a haver. Pelo menos teoricamente, pois umas semanas aparecem, noutras não, é conforme lhes apetece. Mas noutros locais do concelho o sistema porta-a-porta mantém-se. Ora, se eu pago os mesmo impostos que os outros, não deverei ter direito aos mesmos serviços e infrastruturas?… Será que só Barcarena e Porto Salvo foram negativamente discriminadas para este downgrade? Para quem não sabe, estas duas freguesias são os filhos bastardos do Isaltino Morais que faz questão de não fazer cá nada. Quando faz é servindo outros interesses externos…

Entretanto o governo está a estudar a hipótese de implementar a recolha porta-a-porta de fraldas descartáveis para as reciclar e impedir de se acumularem no ambiente (degradação leva 500 anos… e cada bebé implica várias toneladas de fraldas).

Nunca percebi a displicência com que as pessoas admitem, orgulhosas até, por vezes, que não reciclam. Para mim é como dizer que não se dão ao trabalho de usar a casa-de-banho e mijam e cagam onde calhar, porque o WC é muito complicado ou dá muito trabalho. Epá, desculpem lá, mas é mesmo assim. Eu sou péssima na questão da poupança de água. Bom, péssima não, para o padrão das “pessoas normais”, mas péssima para o meu padrão, pelo menos. Se confontada com isso eu tenho é que admitir e ficar envergonhada, e não ostentar orgulhosamente a minha própria estupidez, má educação e falta de sentido cívico.

As pessoas não se preocupam com o tipo e quantidade de embalagens que adquirem e como se desfazem delas, com os seus gastos de energia eléctrica em casa, no trabalho, nos transportes…

Tenho a sensação que para a imensa maioria de “pessoas normais” em Portugal todos os dias são “Energy Wasting Day“2…

[Via]

Entretanto encontrei algo que ajuda a perceber por que é que para, uma viagem, optar pela solução mais respeitadora do ambiente e mais agradável, o comboio, em vez do avião, sai mais caro ao consumidor… *sigh*

A propósito of all the fuss acerca da indisciplina e violência nas escolas despoletada pelo último incidente mediatizado, da miúda a medir forças com a professora por causa de um telemóvel, recomendo a leitura deste artigo. Não é o mesmo tema, mas tem subjacente as mesmas causas: crianças mal educadas, mal formadas, que se tornam adultos egocêntricos, tiranos, mimados, prepotentes, etc, etc.

este outro artigo é sobre a educação/ensino e trata de tentar responder à questão “porque é que os miúdos filandeses são tão espertos?”.

Entretanto estou muito lixada da vida porque perdi todas as minhas tabs do firefox depois de um upgrade menos suave. :-( Eram dezenas de cenas em stand-by. Damn it! Só não perdi estes links porque já os tinha num draft de post. Enfim, uma limpeza geral forçada. Mas já acumulei umas 10 tabs entretanto. Há hábitos difíceis de largar, ou pelo menos domar. :-P

Hmmm…

Via Renas:

Falaram com um amigo de longa data, foram todos fazer exames médicos. E ele acabou por doar o esperma. Marta fez “uma inseminação artificial caseira“. Foi “tudo muito clean”, conta a futura mãe a sorrir. Só foi preciso uma seringa e à terceira tentativa conseguiu engravidar. O acto é, para todos os efeitos, ilegal, diz Pamplona Côrte-Real. A lei portuguesa só permite o acesso à Procriação Medicamente Assistida em centros autorizados e a pessoas casadas ou que, sendo de sexo diferente, vivam em união de facto (…).

Errr…

Pénis dentro de vagina com ejaculação no interior = procriação normal, natural, whatever

Pénis masturbado até à ejaculação para dentro de um frasco + esperma introduzido dentro da vagina com uma *seringa* = procriação *medicamente* assistida.

RiiiigthI wonder, será “medicamente assistida” por envolver uma seringa ou por envolver outra pessoa além da mãe e do pai biológicos? Mas e se o ajudante nem for médico? :-P

Bom, ficamos então a saber que enfiar seringas com esperma dentro de vaginas, é um acto ilegal. Pelo menos se daí resultar uma criancinha. Vejam lá, não se metam em brincadeiras esquisitas. :-P E não façam batota. É ilegal. Não pode haver intermediários caseiros entre pilas e vaginas. Ou bem que é tudo convencional, sem truques, ou bem que é num hospital e tal…

Isto terá saído assim do especialista ou da jornalista?…

A história das coisas

Tenho isto aberto numa das minhas 500 mil tabs há meses. Acho que foi um link indicado pelo Mário, mas não me recordo. The Story of Stuff:

From its extraction through sale, use and disposal, all the stuff in our lives affects communities at home and abroad, yet most of this is hidden from view. The Story of Stuff is a 20-minute, fast-paced, fact-filled look at the underside of our production and consumption patterns. The Story of Stuff exposes the connections between a huge number of environmental and social issues, and calls us together to create a more sustainable and just world. It’ll teach you something, it’ll make you laugh, and it just may change the way you look at all the stuff in your life forever.

Uns teasers muito elucidativos do que está aqui em questão:

O vídeo foi realizado pelo pessoal da FreeRangeStudios responsáveis por outras cenas fixes como a Meatrix, the Mouth Revolution, as Grocery Wars, e outras).

A Cidade Lego

Porra, a minha escola não foi nada assim… A escola ensina coisas que podemos facilmente aprender lendo livros. A nossa escola serve essencialmente o propósito de sociabilizar as crianças. Sociabilizar as in, ver onde cada um se encaixa: nos nerds, nos populares, nos bullies, nos falhados, nos palhaços, etc, etc. As aulas servem para debitar matéria que não “digerimos”, apenas assimilamos para depois expelir.

A escola deveria ser muito mais que isto. Mais como a Escola da Ponte.

Andei na escola uns 20 anos. Para quê? As coisas importantes e que “ficaram” não as aprendi lá (pelo menos nas aulas). Claro que houve experiências positivas e outras não tanto, mas necessárias e úteis para me conhecer e construir a mim própria, mas… no geral, foi uma perda de tempo. Atenção que não estou a advogar a não-escola, mas sim uma escola que provoque a dúvida, o questionar de dogmas, convenções, crenças, comportamentos, que nos faça interagir com os outros a um nível intelectual e emocional, que nos mostre o mundo e como nós o podemos moldar. Uma escola mais dinâmica, em vez do tradicional dia sentado numa cadeira, frente a uma secretária com livros e um professor going blah blah blah.

Não tenho ideias miraculosas nem soluções geniais. Só tenho muitas dúvidas e muitas perguntas e muitas expectativas de haver algo mais eficaz, produtivo e estimulante do que aquilo que eu tive, e muitos outros continuam a ter.

“Live long enough to find the right one”

Uma amiga enviou-me isto por mail e encontrei no YouTube. A versão hetero:

E a versão homo masculina:

Achei engraçado. :-)

Subtilezas da inconsciência

Neste tipo de situações, por que é tão raro ver a carrinha estacionar em paralelo, ocupando vários lugares de estacionamento, em vez de simplesmente “comer” os passeios? Por que é que, quase inconscientemente, respeitamos infinitamente mais as pessoas dentro de carros do que as que estão a pé?

É o paradigma cultural...

“Os putos do bairro”

Há uns putos aqui do bairro social ao lado que gostam de atirar pedras às casas dos outros quando por aqui passam. É um hobby. Às vezes é fruta (que arrancam e roubam das árvores do nosso quintal), outras é pedras. A varanda do meu quarto é alvo frequente. Não sei como ainda não acertaram em alguém, ou não partiram um vidro ou danificaram um carro. Pura sorte nossa, presumo. Até ver…

Hoje a minha mãe presenciou a cena. Era já no “lusco-fusco”, noite, e ela não lhes conseguiu ver as caras. Mas perguntou-lhes porque faziam aquilo, se alguém dali lhes tinha feito algum mal. Eles responderam o habitual, “vai pró caralho”. A minha mãe é conciliadora. Desde sempre, desde que o bairro práqui veio, que ela tenta falar com os míudos que nos entravam no quintal e se empoleiravam nas árvores, partindo-as, para arrancar a fruta (geralmente ainda verde), tentar estabelecer uma relação, tratá-los como pessoas, perceber porque fazem o que fazem e explicar por que não devem fazer algumas dessas coisas e do modo como fazem. Diz-lhes que prefere que lhes peçam a fruta do que a roubem. Talvez tenha resultado algumas vezes, ou com certos putos, mas não faz milagres.

Há algo de revoltante em ter pedras atiradas à nossa casa. Uma pessoa sente-se humilhada, agredida, vulnerável, desprezada. A vinda destas pessoas para aqui não foi pacífica. Houve muitos roubos no início (inclusivé a nossa casa), muitos grupos de miúdos a circular por aqui e a fazer merda. Os putos na minha época também roubavam fruta, entravam em alguns quintais, tocavam às campainhas. Mas não apedrejavam casas, não insultavam os vizinhos descaradamente, na cara deles. Ter polícias à paisana à porta de casa, a controlar o bairro era normal, como o era ter que chamar a polícia por causa de carros roubados ali abandonados (era o “transporte público” à noite, para chegarem a casa). Até operações especiais com armas e polícia à paisana já pude ver da minha janela. Pessoal a conduzir em excesso de velocidade e em défice de segurança também é frequente, e perseguições policiais já levaram a acidentes graves aqui. Os bandidos são reis, impunes, fazem o que querem. Adultos e crianças.

Este bairro social tem melhor aspecto (os prédios, os canteiros ajardinados, os bancos de jardim, a iluminação, a escola ali ao pé, etc, do que as localidades onde foram implantados, pelo que a argumento dos “coitadinhos”, estão ali no guetto, sem infrastruturas nenhumas e não sei quê” não pega. É algo além.

Quando vi este bairro incluído na lista dos piores aqui em Lisboa, num artigo do Sol do passado fim-de-semana, fiquei um bocado com (mais) medo de andar por aqui de bicicleta pra cima e pra baixo, muitas vezes às tantas da manhã… :-(

Viver com medo é terrível. Uma pessoa não deveria ter medo de andar na rua com as suas coisas e ser roubada ou atacada por isso. Não devíamos ter medo dos marginais e dos criminosos, eles é que deviam ter medo de nós. Está tudo ao contrário.

Entretanto, pequenos grandes projectos dão-nos alguma esperança na capacidade da nossa sociedade de se curar e equilibrar…

Mensagens subliminares

O paradigma da supremacia do automóvel revela-se nos mais inesperados (or not) detalhes:

Maldito mindset, bolas!

O passeio já é pequeno, adivinhem onde colocaram os aparelhos de controlo de passagem de automóveis no Bairro Alto?…