O paradigma da supremacia do automóvel revela-se nos mais inesperados (or not) detalhes:
O passeio já é pequeno, adivinhem onde colocaram os aparelhos de controlo de passagem de automóveis no Bairro Alto?…
“Life is not about finding yourself, life is about creating yourself”.
Há uns meses fui a Lisboa tratar de um assunto ali perto de Entrecampos. Fui durante a tarde, o que me impossibilitou de fazer: bicicleta + comboio + bicicleta, como me tinha apetecido, porque para ir, tudo bem, mas para voltar já não dava para trazer a bicicleta no comboio… Fui então de carro + bicicleta dobrável. Conduzi até ali na zona do Alto dos Moinhos e estacionei - havia muitos lugares, e gratuitos. Mas depois surgiu a dúvida: como raio passo daqui para ali (junto da Universidade Católica), se não posso passar pela Av. Lusíada? Não me pareceu ter passeio, pelo menos do lado da estrada onde eu estava. Desci, acabei por ir apanhar o Metro nas Laranjeiras e,… enfim, foi uma tarde estúpida em termos de acessos e mobilidade, nem vale a pena recordar… No regresso, saí na estação da Cidade Universitária ou do Campo Grande, não me recordo bem. E vim a pedalar pela estrada entre o Hospital Santa Maria e o campo desportivo da Cidade Universitária. Chego aos semáforos, sigo pela estrada, novos semáforos e aqui ponho-me no passeio e atravesso numa passadeira junto à mesquita. E sigo por ali, há uma estrada paralela à Av. Lusíada para onde se pode entrar para aceder à tal mesquita.
Chego ao fim, há um stop, e acaba o passeio. Mas descobri, satisfeita, que o viaduto contempla uma passagem para peões, alcatroada.
E sigo por ali a pedalar na minha fiel Mobiky.
Passo em frente à Loja do Cidadão e vejo uma bike estacionada à porta.
É fixe haver o passeio mas a manutenção do mesmo não existe. Comparem a limpeza da estrada dos carros com a das pessoas:
A Av. Lusíada é a maneira mais directa de ligar o Campo Grande ao Alto dos Moinhos (zona do Media Markt e assim). Mas só contempla os automóveis, não há vias para peões! Agora digam-me como é isto possível? E Lisboa está cheia de situações destas. E Oeiras! Isto é uma injustiça social. E um erro in so many ways…
A meio do viaduto cruzei-me com outra pessoa. Mas quase chegada ao fim, começo a indagar-me se aquilo será mesmo um passeio… Afinal, está a começar a afunilar…
Reparem na (já escassa) largura da via antes de começar o afunilamento e depois de o mesmo se instalar:
E a coisa começa a ficar mesmo complicada…
Mas olho para os lados e para o carros há 3 faixas em cada sentido à minha esquerda, duas à direita, e montes de espaço de estacionamento…
E depois, a machadada final. E agora? Salto? Teletransporto-me?
Mesmo depois de saltar, fico muito vulnerável no meio de um saída de uma estrada muito movimentada, e sem passadeira, nem passagem aérea ou o que seja, para atravessar em segurança para o outro lado… Se no início do viaduto houvesse um aviso, ok, agora andar aquilo tudo a pensar que há continuidade na estrutura viária pedonal e depois deparar-me com esta triste realidade,… *sigh*
Quando o espaço público apresenta este nível de qualidade, conforto, segurança, eficiência, é apenas compreensível que os ricos construam condomínios privados que recriem o que o exterior deixou de oferecer. A mania dos mega-centros comerciais que recriam as zonas de comércio tradicional, com as suas ruazinhas e praças e dos condomínios fechados com jardim, sossego e segurança onde se possam deixar as crianças brincar é uma reacção ao espaço urbano hostil que as cidades oferecem cá fora…
Tudo para os carros, nada ou muito pouco para os peões e similares…
Como convencer as pessoas a não usarem o carro para chegarem a locais a apenas 500 metros de distância?…
Os carros têm estradas e espaços para estacionamento à larga.
Os peões não têm direito a larguezas.
E o pouco espaço que lhes é dado ainda é local de eleição para plantar coisas, na maior parte das vezes dedicada aos automobilistas, como sinais de trânsito, semáforos, parquímetros, etc.
E são sempre mais uma opção para estacionar o carrinho…
Os políticos deveriam ser obrigados por lei a deslocar-se de transportes públicos, a pé e de bicicleta, só podendo usar o carro em 20 % do tempo, para que não permitissem que se construíssem cidades assim: absurdas.
Comparem isto com isto. Alguns remarks breves (os bolds são meus):
Na opinião de Madalena Castro, “a decisão em matérias desta natureza deve depender também do conhecimento directo do terreno, pois só assim as políticas de proximidade, e particularmente a política de transportes, servirão o cidadão”.
Nota-se o conhecimento que os decisores autárquicos têm do “terreno”, uma pessoa percebe logo que eles têm imeeeeeeeensa experiência a circular de transportes públicos, a pé ou de bicicleta por Oeiras…
Recorde-se que o seminário “Melhor Mobilidade, Melhor Oeiras” foi promovido pela Oeinerge – Agência Municipal de Energia e Ambiente de Oeiras em parceria com a Câmara Municipal e visou sensibilizar autarquias, empresas e público em geral para a importância da gestão da mobilidade a nível local, concretamente através de acções que permitam melhorar a qualidade de vida.
Pffff! Viu-se o esforço de sensibilização na divulgação que o evento teve junto das massas, a afluência estrondosa de “público em geral” e “empresas” e no interesse demonstrado em ouvir o “público em geral” que se dignou assistir àquilo e ainda se deu ao trabalho de (tentar) participar activamente na discussão.
Para além de um enquadramento da temática, com a apresentação pública dos resultados do ‘Estudo de Mobilidade e Acessibilidades de Oeiras’, com a divulgação do ‘Serviço Combus’ e com o lançamento do ‘Consultório de Mobilidade, Energia e Ambiente’, o seminário constituiu-se como um espaço de debate e discussão acerca da temática dos transportes e da mobilidade sustentável.
lol Grande debate, sim senhor. A democracia participativa no seu melhor.
Assinale-se que a apresentação pública de projectos e iniciativas que caracterizam as políticas locais ligadas à mobilidade sustentável em Oeiras tem ocorrido, anualmente, no âmbito da Semana Europeia da Mobilidade.
Claro, para apresentar trabalho em dia solene, para europeu ver.
Na RTP, emitida a 13 de Janeiro de 2008.
Isto é tão vergonhoso, a impunidade, a condescendência com que as autoridades (leia-se, juízes) olham para os criminosos, desvalorizando as vítimas (imaginem se a moda pega e passam a fazer isso com tudo na nossa “Justiça”…), que é revoltante…
Há tempos houve aí uma pequena “polémica” por causa dos sacos de plástico nos supermercados e afins a pagar (como já acontece no Pingo Doce e no Lidl, por exemplo).
Resultado: agora tem-me acontecido as meninas da caixa comentarem “ah, mas ainda não se pagam os sacos!”, quando lhes digo que não preciso dos de plástico delas e começo a sacar dos meus. Como se uma pessoa pudesse fazer isto apenas e só porque de repente vai passar a pagar uns cêntimos a mais para ter direito a sacos descartáveis. Que mentalidade pobre. Por outro lado, já tive comentários positivos, tipo “se todos fizessem isso…”.
Ora, eu já ando com 2 na mala, o Bruno anda com 1 (a mala é mais pequena
) e tem outro de reserva, e já ofereci 4 a amigos no Natal e outro à minha mana. Esta estreou o dela ontem, nos saldos.
E disse que no outro dia viu um casal não sei onde com 2 sacos iguaizinhos aos nossos!
Por isso, e como respondi à senhora da caixa, “um dia todos farão isto”. ![]()
Passeios: lugar para plantar sinais de trânsito para os motoristas, marcos de correio, caixotes do lixo… E, se der, para os peões se encolherem e passarem. À vez.
Não ocorre aos CTT nem à CML colocar os marcos do correio na estrada, reduzindo o espaço de menos de 1 lugar de estacionamento. Que sacrilégio seria!
Na 5ª-feira passada, 22 de Novembro, fomos a Lisboa, ao lançamento do livro “País (In)sustentável“, da Luísa Schmidt, no Teatro S. Luiz (again!).
Não sabia do livro, foi através de um blog or something que soube disto, praí na véspera, e decidi ir. Leio a coluna da autora no Expresso desde que me lembro, gostei de ver aqueles documentários «Portugal – Um Retrato Ambiental», e tenho-a em boa conta, no geral. Bom, àparte de ela no final do último “Um Dia Por Lisboa” ter dado convites para o lançamento do livro a pessoas com quem nós estávamos a conversar mas não a nós, à nossa frente. Na altura não sabia o que era, agora já sei. Enfim, também não tem importância, foi só um pormenor.
Nunca tinha ido ao lançamento de um livro, e fui mais para saber como era. Posso comprar o livro noutro sítio qualquer. Afinal ali era mais barato uns 5 € e aproveitei o desconto.
Não, no final não fui “falar com a autora”, nem pedir um autógrafo. O que iria dizer? “Ah, gosto muito do seu trabalho.” Ou outros clichés do género? Eu não conheço a mulher! E não sei fazer conversa, já sabem.
E também não fomos petiscar depois, afinal, não fomos convidados. lol
Foi uma viagem multimodal: carro + bicicleta para lá, bicicleta + Metro + carro para cá.
Já tenho bastante experiência de utilização da Mobiky com o Metro e há cenas que me lixam o juízo. Porque é que a política de mobilidade e acessibilidade não é uniforme em TODAS as estações? Numas há elevadores, noutras não…
Numas vêem-se placas para esses mesmos elevadores, noutras andamos feitos parvos a tentar vê-las. Numas há escadas rolantes além das escadas normais.
Noutras só há escadas normais. Noutras há escadas rolantes mas só nalguns troços das escadas normais, ou só nalgumas entradas… F***-se! Uma pessoa tem que saber à partida que estações vai usar para se certificar de que consegue entrar e/ou sair de lá (assumindo que já as conhece). Isto admite-se? Para mim isto apenas me rouba tempo e torna a minha viagem mais cansativa, quando não habia nexexidade. Pego na bicicleta e lá subo ou desço as escadas. Claro que ao fim de 4 ou 5 ou 6 vezes em que tive que a carregar (quando ela está preparada para eu a levar a rolar ao meu lado!) já começo a questionar a minha opção de ter optado ou pela bicicleta ou pelo Metro. Geralmente quem perde é o Metro porque ou vou o caminho todo de bicicleta ou substituo o Metro pelo carro… (Hey Metropolitano de Lisboa, take a damn HINT!!). Mas e se for uma pessoa com um miúdo num carrinho? Ou uma pessoa em cadeira-de-rodas? Ou um idoso ou outra pessoa com mobilidade algo limitada/condicionada? Porque é que estas pessoas não se vêem no Metro em grande quantidade? Hein? Talvez porque o Metro não serve as suas necessidades. Por isso ou ficam em casa (muitos dos deficientes) ou compram um carro e usam-no intensivamente quer queiram quer não, quer gostem quer não, quer o consigam sustentar quer não (famílias com filhos)!! A sério, isto revolta-me. E sinto-me impotente e é uma sensação horrível. E gostava de ter energia e combater o conformismo e lutar, fazer alguma coisa mais útil que postar fotos das asneiras deste país e blogá-las. Aaargh!
No site deles: “Aconselhamos as pessoas de mobilidade reduzida a viajarem acompanhadas.” No shit!! Claro, elas precisam de alguém que as ajude a localizar os elevadores, quando existam, ou que vá “chamar alguém” para inventar ou lhes indicar uma maneira de saírem dali. Ora, todos os utentes do Metro (ou de qualquer outro transporte público), se pagam o mesmo que toda a gente pelo bilhete, deveriam ter condições para usar os serviços de uma forma independente e fluida. Se eu não posso chegar e sair dos cais de embarque de forma autónoma e rápida, sem ter que esperar e perder tempo a pedir ajuda e a usar infrastruturas “especiais” ou condicionadas, mais vale comprar um carro, porra!! Como está, seria mais justo colocarem nas entradas das estações sinais e dizer “se traz carrinhos ou cadeiras-de-rodas, esqueça, isto não serve para si. Apanhe um táxi, vá a pé ou desista”. Os transportes públicos não podem ser uma não-escolha dos seus utentes, não podem ser o último recurso, porque assim só vão atrair os que não têm dinheiro para comprar e manter um carro, ou andar de táxi. Os transportes públicos têm que atrair utentes porque são melhores alternativas do que ir de carro, ou a pé ou de bicicleta (e não devido à falta de condições dignas para estes modos!).
*sigh*
Aquilo começou às 18h e já era de noite quando íamos para lá (chegámos uns 15 ou 20 minutos atrasados). Passámos pela ciclovia do Campo Grande para fugir aos carros, mas a ciclovia não tem iluminação absolutamente nenhuma, e está toda cheia de caruma e folhas, além de rachas e outros danos no piso.
Há iluminação nas vias do lado esquerdo e do lado direito, destinadas aos carros (e às bicicletas cujos condutores não temam pela vida a circular num local multi-faixas e onde as latas andam a velocidades MUITO acima dos 50 km/h legais…), que têm luz própria para dar e vender, mas a ciclovia pode ficar às escuras para ser insegura pela infrastrutura e pelo ambiente propício a assaltos… Mas alguém percebe este povo?
Para lá, íamos a descer a Av. Fontes Pereira de Melo e estava fila, hora de ponta. Houve uma gaja que tinha um problema qualquer com bicicletas e então “ultrapassava-nos” para se tentar meter à nossa frente. Atenção, estava tudo parado, muitos carros, semáforos uns atrás dos outros. Qual era a necessidade? Tipo, parece que se pica de estarmos à frente dela, e não pode ser. Ela não nos apitou, simplesmente teve uma atitude imbecil, o que ainda não é crime, infelizmente.
A primeira vez que me fez aquilo, passou-me rente (mesmo que a baixa velocidade), para parar 50 cm à minha frente, dei-lhe uma Airzoundzada logo.
Adoro, o pessoal nunca está à espera de uma buzinadela de um ciclista, muito menos de uma tipo camião vinda de uma mini-bicicleta como a Mobiky. lolol Ao menos sempre me vou divertindo com estas pequenas desgraças inconsequentes do trânsito.
Bom, ela continuou a fazer aquilo a seguir, mas já não passou perto…
No dia seguinte, 6ª-feira, voltei a Lx, e meti-me em novas aventuras.
Logo blogo sobre as minhas peripécias, quando der. ![]()
No passado dia 12 de Novembro eu e o Bruno fomos ao Teatro S. Luiz, em Lisboa, no Chiado, a propósito do “Um Dia por Lisboa: O Tejo e tudo”. Foi muito interessante.
Estivémos lá desde as 18h30 até à meia-noite e meia, o pior foi depois das 22h, em que tivémos que ficar em pé porque já não havia cadeiras livres (desocupámos as nossas pra ir jantar um double cheeseburger no caminho).
Independentemente do que se abordou lá, fiquei com uma sensação muito boa de comunidade. Ali estiveram umas 500 pessoas ao longo daquelas 6 horas, e teve a participação de pessoas em cargos políticos e técnicos elevados. Não teve o feeling das conferências convencionais, parecia mais uma conversa de igual para igual numa praça pública. Não houve muito debate / diálogo com o “povo”, primeiro falaram os técnicos, depois os políticos, e umas amostras do público.
Mas comparado com o resto, foi excelente. Senti que talvez o país esteja a mudar, a mentalidade (de alguns, pelo menos), a relação com a política e com quem a faz. Nota-se um esforço de intervenção, de discussão, de intimação a prestar contas do que se pretende fazer, do que se está a fazer, do que se fez. Foi estranho ver pessoas que vemos nos media assim ao perto, como se fossem pessoas “normais”.
Talvez o país não esteja realmente a mudar, talvez tudo continue na mesma, mas naquele dia, naquele local, senti-me bem com Lisboa, com esperança.
Vindos do Cais do Sodré, passámos por uma bicicleta holandesa (literalmente, Gazelle), estacionada encostada a uma parede.
Tinha bom aspecto e perguntámo-nos onde estaria o seu dono. No regresso, já depois da meia-noite, a bicicleta continuava lá.
Sim, eu sei, desculpem lá a mania de pôr bicicletas em tudo, mas não consigo evitar fotografá-las e depois tenho que as mostrar, não é? ![]()
No dia 4 de Novembro, um domingo, fizémos, bom, fez o Bruno, a viagem inaugural “a sério” da Xtracycle dele (Xtracycle é o fabricante do kit FreeRadical e define também qualquer bicicleta equipada com esse kit). Uma Xtracycle tem (no mínimo) 4 vezes maior capacidade de transporte de carga que uma bicicleta normal:
Esta cena é outro dos nossos produtos-paixão e há quase 2 anos que sonhávamos com isto.
Bom, mais tarde, quando instalar o kit na minha bike também, voltarei a falar dela.
Ele ia gravar outra maquete (a primeira a solo e a ser emitida) do programa Sociedade Livre na Rádio Zero, no Técnico e aproveitámos para fazer a viagem by bike. Bom, pelo menos a maior parte dela. Ao domingo pode-se levar as bicicletas no comboio da linha de Cascais, gratuitamente e a qualquer hora. Por isso aproveitámos e fomos apanhar um em Paço de Arcos. Até lá é smooth.
Ora, dado que as carruagens da CP nesta linha não contemplam as necessidades dos utentes com bagagem mais volumosa (bicicletas, pranchas de surf, carrinhos de bebé,…) o segredo para uma viagem tranquila é posicionarmo-nos na zona da primeira ou da última carruagem (ou qualquer uma com uma ponta sem passagem inter-carruagens).
Ora, pela minha experiência, o mais seguro é, na estação, ficarmos no fim, para entrarmos na última carruagem (a primeira costuma ter mais gente e mais fluxo de pessoas). Depois é só entrar com as bicicletas (2 no máximo, para não obstruir a passagem nessas portas).
Assim, as pessoas nas estações seguintes conseguem entrar ali (não sabem à partida que lá estão bicicletas) e as que quiserem sair também o podem fazer (embora geralmente optem pelas restantes portas da carruagem). Como é a última carruagem, as bicicletas encostadas à parede (e à eventual porta) não estão no caminho nem obstruem a porta nem a passagem de pessoas.
Sempre que temos levado as bicicletas no comboio ao fim-de-semana, as carruagens andam tão vazias que nunca houve sequer o perigo de as bicicletas se constituírem num incómodo para alguém. Em contrapartida, é ver os automóveis a fazer fila na estrada ao lado da linha…
Chegados ao Cais do Sodré, passámos pelo Terreiro do Paço (cada vez mais morto, infelizmente), e por momentos pensámos ver uma revolução, estavam árvores no meio do alcatrão. Afinal era tudo para uma filmagem para um filme de época…
Seguimos em direcção à R. dos Bacalhoeiros, para participar na Cicloficina, embora tivéssemos quase certeza de que não iria ocorrer, o que se verificou. Bom, a não ser que o Bruno ter afinado as mudanças da minha bici conte.
Deu pra ver que a interdição ao trânsito automóvel naquela zona não tem sido respeitada nem fiscalizada…
Bom, depois seguimos em direcção à Alameda, para a tal gravação na Rádio Zero no IST. Fomos pela Baixa (estranhíssimo estar ali de bike, e sem trânsito automóvel, o sossego, a calma…), Restauradores, Av. da Liberdade (uma das ruas laterais), jardim do Parque Eduardo VII e depois mais umas ruas ali pelo meio até ao Técnico.
As pessoas clamam por ciclovias para andar de bicicleta na cidade, mas não percebem que deviam estar a clamar por 2 coisas imensamente mais importantes e que, a realizarem-se, tornariam as ciclovias desnecessárias: o arranjo e manutenção das estradas (e passeios e demais vias públicas) e a acalmia de tráfego (incluindo regularização do estacionamento automóvel)…
Os ilhéus pedonais são estupidamente pequenos dado o tempo que dão aos peões para atravessarem as estradas… (acumulando-se as pessoas em passeios minúsculos em vias de tráfego intenso e rápido, muitas das vezes).
Bom, lá chegámos à Alameda (fiquei a conhecer um pouco melhor a cidade, nada como viajar de bicicleta) e fomos para o estúdio. Aquilo levou horas, foi só conversa.
Eu tinha levado o Expresso e entretive-me a ler.
Quando saí do estúdio para ir comprar um lanche, num café cá fora, vi o Jardim Arco do Cego. Tinha bastantes pessoas, sentadas nos bancos, a andar de bicicleta, etc, e tinha bom aspecto.
Um pequeno parque verde dentro da cidade, muito bom!
Quando voltei, pude ver uma rapariga a sair de bicicleta (que tinha visto antes presa a um poste - a bicicleta, não a rapariga). De bicicleta! Uma rapariga! Weeeee!
Saímos do estúdio já de noite. Voltámos à estrada de bicicleta.
Decidimos ir pela Marginal, ou chegaríamos bué tarde a casa. Correu bem. Temos luzes e reflectores and we “take the lane” sempre que é o necessário para nos mantermos em segurança no meio dos carros. Foi uma viagem pacífica, sempre a pedalar em bom ritmo, o que estranhei pois estou habituada às intermitências dos percursos urbanos.
No dia seguinte, segunda-feira, dia 5, houve uma concentração / encenação / manifestação da ACA-M no Terreiro do Paço, no local onde houve aquele acidente homicídio por negligência com contornos macabros. Eu e o Bruno resolvemos ir, tínhamos recebido um e-mail a apelar à participação, que precisavam de gente para fazer um “passadeira humana”. Levámos uns lençóis velhos e lá fomos, de bicicleta, como no dia anterior. Nota: na estação de Paço de Arcos vimos uma bike presa a um gradeamento.
Para lá fomos de comboio (no sentido Cascais -> Lisboa só deixava de ser permitido levar as bicicletas a partir das 17h). Chegámos lá e vimos um grupo de pessoas mas ficámos à espera pois não conhecíamos ninguém e ainda não era suficientemente claro o que se estava a passar.
Acabou por não se fazer aquilo das pessoas enroladas nos lençóis, deitas na passadeira, puseram só os lençóis. Entretanto ficámos depois lá a falar um bocado com o Marcos, o Miguel, o Mário e outro rapaz de cujo nome agora não me recordo. Sobre bicicletas, segurança rodoviária, etc. Entretanto ficou de noite e tivemos que nos pôr a caminho. Ainda tinha que passar por Algés a buscar uma roupa que tinha deixado a arranjar, essa loja fechava às 20h, mas não podíamos levar as bicicletas no comboio no sentido Lisboa -> Cascais antes dessas mesmas 20h. Não tivemos escolha e fomos pela Marginal. Que, desde o Terreiro do Paço, estava entupida. Mas lá fomos andando, indo pelo meio dos carros quando tal era fisicamente possível e minimamente seguro. Foi uma experiência útil e desmistificou a Marginal como sítio improprio para ciclistas, pelo menos à hora de ponta (mais carros -> menor velocidade).
A questão da sinistralidade rodoviária é um drama tão grande e as pessoas nem se apercebem de quão grande… É uma guerra, um homicídio em massa, uma guerra civil levada a cabo, maioritariamente, por cidadãos normais: integrados, law abiding,… Mas negligentes ou simplesmente inaptos para a condução de um veículo de 1 ou 2 toneladas passível de ser usado (deliberada e conscientemente ou não) como uma arma de arremesso letal… E depois há a questão mais abrangente da mobilidade e dos transportes, porque a poluição também mata, o aquecimento global também, o estrangulamento económico das cidades pelo congestionamento e perda de produtividade e de qualidade de vida também mata (mesmo que suave e lentamente…).
A Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados vem convidar-vos para participar, na próxima segunda-feira, dia 5 de Novembro, pelas 16.30, numa concentração de homenagem às vítimas do triplo atropelamento ocorrido ontem pelas 5.30h, no local da tragédia, a passagem de peões fronteira à Estação Fluvial do Terreiro do Paço.
Pretendemos fazer uma passadeira com pessoas deitadas no chão, cobertas com um lençol.
Para garantir o sucesso desta iniciativa, vimos solicitar a vossa colaboração, participando na concentração e levando, se possível, um lençol branco.
O Governo Civil foi já notificado desta iniciativa.
Pedimos também a divulgação desta mensagem.
Pela direcção da ACA-M
Manuel João Ramos»
Li no SOL o relato de uma pessoa que socorreu as vítimas, dizendo que viu um braço decepado algures, metade do corpo de uma vítima dentro do carro, e coisas assim. Tétrico. E que o carro só parou 200 metros depois. Vi noutro sítio que a condutora foi levada sob prisão ao hospital, mas no SOL dizia que saiu em liberdade… Como é possível? Porque é que a negligência e os homicídios perpetrados atrás de um volante de um automóvel são aceites pela sociedade como “acidentes” e não por aquilo que são, homicídios por negligência, inépcia, e… sei lá, irresponsabilidade, maldade,…?
Há dias percebi o porquê de alguns ciclistas passarem os sinais vermelhos dos semáforos, algo que nunca percebi e que sempre olhei com desaprovação.
Estava no carro e apanhei uma série de gente de bicicleta ao longo da viagem, nomeadamente este ciclista de licra (a.k.a. desportista/atleta):
Mais à frente apanhou-nos, e vi-o a passar uma série de sinais vermelhos.
Estava a comentar isso com o Bruno e de repente é que me ocorreu. Um tipo destes passar um vermelho não é a mesma coisa que um bike commuter passar um vermelho. Ele está a treinar, não está a ir de A a B. Agora imaginem que raio de treino conseguiria ele fazer se tivesse que parar a cada 2 minutos. Isto revela que há falta de infrastruturas desportivas adequadas aos ciclistas. Percursos longos e desimpedidos em que eles possam andar a abrir e sem parar. Tem que ser algo distinto (ou pelo menos separado) das vias similares mas para utilizadores em passeio, em lazer.
Pelo nosso Código da Estrada, uma pessoa em cadeira-de-rodas é equiparada a um peão. Isto significa que deve circular pelos passeios sempre que estes existam e que não pode circular nas ciclovias. E isso até poderia fazer sentido, mas num país onde quem constrói as infrastruturas tivesse dois dedos de testa e alguma consideração pelos outros. Até lá, é óbvio que uma pessoa com qualquer coisa com rodas vai preferir o piso liso da ciclovia ao piso irregular e rugoso dos passeios em calçada, já para não falar da falta de desnivelamento, rampas, nos acessos aos passeios…
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