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Heróis quotidianos

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Activismo de sofá: Optimus Alive

Ontem fiz mais um pouco do meu activismo de sofá:

From: anabananasplit
To: geral @ everythingisnew . pt
Subject: info transportes
Date: 06/03/2010 09:08:03 PM

Olá,

Vi há pouco a sondagem no vosso site, acerca do meio de transporte a usar para ir ao festival. Contudo, reparei que essa sondagem e, paralelamente, a vossa secção “Como chegar”, ignora completamente 3 opções que deveriam ser promovidas, a par dos transportes públicos:

1) ir a pé
2) ir de bicicleta
3) ir de moto

A opção carro deveria ser fortemente desencorajada. 1000 ou 2000 automóveis a querer aceder, passar e estacionar naquela zona é intolerável. Gera poluição, ruído, insegurança, e origina situações de estacionamento selvagem que danifica os passeios e outros equipamentos públicos, e dificulta a circulação dos peões. Não se admite isto num sítio integrado na malha urbana, plano, e onde há um interface de transportes públicos que inclui comboio, eléctrico e autocarros.

A bicicleta e a moto poderiam ser incentivadas oferecendo um local de estacionamento para as mesmas num local apelativo (mesmo à entrada do recinto), vedado, vigiado, e com boas estruturas onde encostar as
bicicletas e onde as prender (tal como as motos). Isto deveria ser publicitado com antecedência.

O mundo muda-se todos os dias, basta querer.

Grata pela atenção.

Cumprimentos,

Mandem a vossa posta também. Os amanhãs fazem-se hoje!

Call out aos ciclistas: colaboração em projecto de design de comunicação

Recebemos no Bicicultura.org um e-mail com um pedido de colaboração, que passo a divulgar:

Dê-nos uma boa razão para pôr alguém a andar de bicicleta

PROJECTO: Design e mobilidade – por uma cidade mais inteligente e emotiva

Sempre se andou de bicicleta por diversas razões. Contudo, hoje, essa opção pode até ser uma atitude politica.
O meu vizinho comprou um Mercedes. Eu faço questão de andar de bicicleta” – o carro é um objecto simbólico – uma espécie de avatar, através do qual as pessoas se fazem representar socialmente. Se umas têm a pretensão de demonstrar poder e riqueza através desse uso, outras contribuem para reciclar essa mentalidade face aos problemas ecológicos, económicos e de saúde, reais. Recai sobre nós a decisão consciente de escolher o nosso avatar.

Entre muitas outras razões, a bicicleta é também uma expressão de liberdade e integração social. O vidro do automóvel separa as pessoas, a bicicleta integra-as.

QUEM SOMOS?

Mónica Santos e Suzana Dias – designers de comunicação e em fase de doutoramento.

EM QUE CONSISTE O PROJECTO?

Este projecto está a ser pensado dentro do âmbito de uma cadeira de doutoramento em Arte e Design. Tem a ambição de ser uma pequena, mas rica, experiência entre nós e as pessoas que quiserem participar.

Ao colaborar connosco estará na posição de cliente e de autor ao mesmo tempo, ou seja, irá dizer-nos qual a melhor forma para sensibilizar alguém a utilizar a bicicleta. Nós, enquanto designers de comunicação, iremos traduziremos essas ideias visualmente. Daremos forma aos dados que nos chegarem e iremos analisar a eficácia comunicativa.

COMO PARTICIPAR?

Muito simples:

1) diga-nos, numa frase, expressão ou ideia, o que diria a um amigo para o motivar a andar de bicicleta.

[(dica) lembre-se da eficácia do humor e da emoção quando se trata de persuadir alguém].

2) Quais os pontos que identifica como mais relevantes para sensibilizar a sociedade para preferir a bicicleta a outro veículo.

3) Conte-nos em 3 linhas como personaliza (ou personalizou na adolescência) a sua bicicleta. Qual a memória que o/a liga à bicicleta?

Uma vez que é co-autor, deixe-nos um elemento identificativo: nome, nickname, email.

OBJECTIVOS?

- Este projecto é um exercício com um fim meramente experimental. Verificaremos, através dele, se a colaboração directa da criatividade das pessoas com um designer de comunicação, pode ou não potenciar a mensagem, tornando-a mais eficaz que um trabalho institucional. Neste caso, mais eficaz que uma campanha de sensibilização institucional.

– Dar lugar às pessoas para serem co-autoras numa mensagem visual.

- Substituir a ideia de ‘cliente’ por ‘colaborador’.

- Uso da plataforma digital pela ligação directa a grupos específicos em redes sociais para: levantamento das necessidades comunicativas; criatividade social; divulgação viral da mensagem.

- Uso da internet como plataforma colaborativa, para um fim democrático.

- Utilização do design de comunicação para um fim ético, politico e social.

- Disseminar o resultado desta experiência (mensagem de sensibilização para a utilização da bicicleta) através da Internet de forma gratuita.

DÚVIDAS?

Não hesitem em contactar-nos:

bicicla@clix.pt

PRAZO DE PARTICIPAÇÃO?

(curtinho) até dia 11 de Junho.

Obrigada!

Suzana Dias e Mónica Santos

Participem também e passem a palavra! :-)

Ciclistas, cheguem-se à frente!

Hoje acordei a horas indecentes para ter tempo suficiente para acordar e perder um bocado aquela voz de cama para participar em directo no programa do José Candeias na Antena 1. Foram pouco mais de 6 minutos de entrevista, numa rubrica semanal que visa dar a conhecer pessoas que utilizam a bicicleta como meio de transporte na cidade. Li o repto do José no site da MC e lembro-me de o Miguel Barroso ter dito que ia participar. Acho relevante esta rubrica (será provavelmente única no país), pois ajuda a dar visibilidade e um rosto humano (ou pelo menos voz ;-) ) aos ciclistas actuais, contribuindo para a desconstrução de ideias feitas e preconceitos, desmistificando algumas questões. Precisamos de coisas assim, que mostrem que há pessoas que optam livremente pela bicicleta como meio de transporte principal ou complementar, quem são, o que fazem, o que pensam, etc. Passar a mensagem que são pessoas como as outras, que devem ser respeitadas nas suas opções, e que estas não são menos válidas que as outras.

Aqui fica a minha intervenção. Infelizmente o programa não tem um arquivo, pelo que não dá para aceder aos testemunhos dos outros intervenientes.

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

O José procura mais ciclistas que queiram participar no programa. Respondam ao apelo (jose.candeias@ext.rtp.pt), é um pequeno “activismo de sofá” que só nos leva meia dúzia de minutos e pode fazer muito pela mudança de mentalidade da sociedade no que aos ciclistas diz respeito. E isso é fundamental para sermos bem sucedidos nos esforços pela alteração ao Código da Estrada, à promoção de condições de estacionamento e multi- e inter-modalidade, etc.

P.S.: Amanhã é dia de Massa Crítica. Apareçam! Eu este mês devo conseguir ir também! :-)

MC Abril 2010

Dei um salto a Espanha

Sempre fui ao 3º Congres de la bicicleta, em Lleida, Espanha. E a viagem será financiada pelo trabalho de tradução de um velo-documentário, actualmente em curso. :-) Nunca viajei sozinha para o estrangeiro, e foi bom começar por um destino “aqui perto” geográfica e linguisticamente. :-)

Não tenho, neste momento, disponibilidade e disposição para fazer um relato como deve ser, pelo que deixo só umas impressões gerais. O tema do congresso foi a legislação e as infraestruturas, deixando de fora um vértice fundamental do “triângulo”: a formação. Dos ciclistas, dos motoristas, dos peões, dos técnicos, etc, etc. De resto, achei interessante e fiquei contente por ter decidido ir, mesmo que um bocado à última da hora (ah e tal, ir sozinha, e o que é que eu vou lá fazer, não conheço ninguém, yada yada yada). ;-)

Foi engraçado porque acabei por conhecer a Mane, do blog Biciene, que já conhecia por ter blogado um vídeo meu há tempos, mas que me reconheceu pela minha T-shirt, pois tinha encomendado umas para ela e para mais umas pessoas. “O mundo é um guardanapo”, como me disseram várias vezes durante a minha estadia por terras de Lleida. :-)

Tive ainda a oportunidade de conhecer e conversar com outras pessoas, espanholas, dinamarquesas e francesas, com quem aproveitei para estabelecer contactos para o projecto http://laws.bicicultura.org/

Entretanto hão-de-colocar as apresentações dos oradores online, aqui.

As minhas fotos estão aqui. Há mais aqui.

Fiquei alojada no “Jardins del Segrià” e só posso dizer coisas boas do sítio e das pessoas, nomeadamente do Antonio, que foi uma simpatia. Recomendo vivamente.

Foi interessante poder andar a pé por Madrid, deu-me um melhor insight sobre o que será andar de bicicleta por lá. E achei Lleida um espectáculo a nível de condições para os peões. Passeios impecáveis, passadeiras bem feitas, e rebaixadas, bancos e bebedouros nas ruas.

Passeios impecáveis

E carros estacionados em cima de passeios não enchem os dedos de uma mão. Disseram-me que foi por vontade política há uns anos (a polícia não perdoa) e as multas são elevadas, o que associado à Carta de Condução por pontos, resultou numa cidade civilizada. Por cá, é a mesma merda de sempre. Ainda não houve nenhuma viagem ao estrangeiro (Alemanha, Suiça, Espanha) da qual voltasse feliz e orgulhosa por voltar para o meu país por o achar tão ou mais avançado, mais agradável, ou mais eficiente. Talvez tenha que começar a viajar para fora da Europa, pelo menos… *sigh*

Adorei poder fazer os cerca de 500 Km entre Madrid e Lleida em pouco mais de 2 horas, no comboio de alta velocidade.

Working

Não gostei de ter que fazer os 600 e tal Km entre Lisboa e Madrid em 10h30min, overnight, num comboio desconfortável para o efeito (classe turista).

Lusitânia Comboio Hotel Lisboa-Madrid

Não percebo porque é que não podemos ter estações de transportes públicos (interfaces) como outros países têm, limpas, confortáveis, funcionais, legíveis, etc, etc.

Bom, adiante.

Cerca de 350 pessoas participaram neste congresso, o que mostra a importância crescente deste tema. Houve um intervalo para café em que me pareceu ouvir alguém a falar português, mas não tive oportunidade de lhes seguir o rasto e confirmar. Penso que se não era a única portuguesa lá, andaria lá perto. :-(

Bicicleta longtail procura novo(a) dono(a)

Eu quero trocar de bicicleta “do dia-a-dia”, por razões que se prendem com uma mudança de casa, mudança de concelho de residência, e consequente plano de procurar ter um estilo de vida o mais “car light” possível. Como tal, em nome da optimização do mui escasso espaço disponível na minha nova morada T0 sem garagem, e do investimento numa bicicleta dobrável para facilitar as muitas deslocações multimodais intra- e inter-urbanas previstas, pretendo vender a minha Xtracycle. Até dói dizer isto, mas é o melhor dadas as circunstâncias. Claro que mal tenha hipótese comprarei outra, continuo a sonhar com uma Big Dummy. :-P Mas por agora acartar diariamente e fazer caber 2 Xtracycles num mini-apartamento seria complicado a escorregar para o inviável, por mais que eu sinta que a Xtracycle é “a bicicleta da minha vida”. ;-)

Posto isto, aqui ficam os detalhes da minha X, com indicação dos preços das principais peças novas, para referência:

Back and top

Mais fotos aqui.

Quadro: B’twin 7 tamanho M (roda 26″) de 2005 (299 €). Esta foi a bicicleta “dadora” onde mais tarde (Janeiro 2008) instalei o kit FreeRadical (449 €), transformando-a numa Xtracycle ou “longtail“.

Pouco depois mudei os pneus para uns mais adequados a estrada (e com reflectores laterais embutidos).

A transmissão foi mudada também, para lidar melhor com as subidas (afinal, é uma “cargo bike”), tem uma pedaleira Alivio. Os manípulos das mudanças também foram alvo de um upgrade, de punhos rotativos para tipo gatilho (“trigger shifters“), para maior conforto e eficiência – no início custei a habituar-me, mas agora não voltava aos rotativos nem por nada.

Os pedais também são diferentes dos originais, e são em alumínio, e têm suportes para melhor “encaixar” o pé ao pedalar.

Mais tarde também mudei o guiador (e punhos) e o avanço (ambos da Humpert, em inox), para um estilo de condução mais direito/vertical, e uma posição das mãos mais ergonómica.

O selim também sofreu um upgrade, para um Royal Respiro Athletic (women), que melhorou imenso o meu conforto na bicicleta.

E depois há os acessórios básicos, essenciais: uma buzina AirZound, um espelho retrovisor Cyclestar e boas luzes atrás e à frente, e ainda um ciclocomputador (dá jeito para controlar as horas, a velocidade, e as distâncias). Tudo isto foi um upgrade. Embora mantenha a campainha simples original (para os peões, a buzina é para os motoristas).

É uma bicicleta muito confortável (de notar que tem suspensão atrás e à frente) e muito prática para as voltas do dia-a-dia, especialmente para quem tem regularmente que transportar coisas pesadas ou volumosas, ou para quem goste simplesmente de não ter que planear as suas actividades e as suas compras com muito detalhe ou antecedência. Se a oportunidade surge, há espaço na bicicleta. :-)

Tem tido uso regular, mas não intensivo, e tem sido bem estimada e bem mantida.

O valor dela, equipada como descrito (incluindo acessórios) e ilustrado nas fotos, “nova” está estimado em cerca de 1000 €. Vendo-a por 650 €, negociáveis. É possível vê-la e experimentá-la, é só combinar um encontro aqui em Porto Salvo. Contacto: anabananasplit @ gmail . com. O Bruno tem a dele também à venda, pelo que se houver quem queira as duas, faz-se um desconto! :-)

“Road vs. Cycling Facilities”

Outro exemplo de comparação entre “ciclovia” e estrada normal, desta vez no Reino Unido, este não da minha autoria:

[Via]

Amanhã há Cicloficina no Largo Camões, em Lisboa

Pelo menos é o previsto! :-)

Bicicooltura em Porto Salvo!

Não percam o ciclo-evento do ano em Porto Salvo, o Café Vélo!! :-D Este Sábado, das 15h às 20h, na Doce Lima.

Café Vélo by Cenas a Pedal

A solução nunca pode ser mudar de sistema…

… apenas se pode mudar o sistema.

So true

Analisar ciclovias

Em Maio eu e o Bruno fizémo-nos à estrada, em bicicleta, daqui de Porto Salvo até Lisboa, para irmos conhecer algumas ciclovias que estavam a ser finalizadas ou estavam já concluídas. E gravámos vários troços da viagem, incluindo um comparativo ciclovia vs. estrada no troço Monsanto-Campolide. Claro que, para não variar, esses vídeos ficaram em águas de bacalhau porque não temos tempo para os editar e transformar em algo útil. Ou mesmo que simplesmente giro. :-)

Há cerca de uma semana fui repescá-lo, o Bruno editou-o e publicou-o no YouTube, para servir de case study numa discussão sobre ciclovias na mailing-list da MUBi. Como a conversa morreu após o meu último (e mais gráfico) e-mail, resolvi não o deixar enterrado, talvez assim encontre terrenos mais férteis de discussão e debate…

Experiência tosca (única e não-científica) de avaliação comparativa da ciclovia Monsanto-Campolide:

De todo o percurso patente no vídeo, foquemo-nos na rotunda:

rotundacampolide2

Um ponto de conflito é um ponto onde diferentes fluxos de tráfego se cruzam, logo, que introduzem obstáculos no percurso, diminuindo a velocidade média da viagem, e são um foco potencial de acidentes.

Os pontos vermelhos e azuis escuros são pontos de conflito muito óbvios e localizados, e onde o ciclista é que tem que ceder passagem. De notar que o 4º ponto azul, dentro da rotunda, é um potencial ponto de conflito um pouco mais difuso (quem entra na rotunda tem que ceder passagem ao ciclista, mas uma vez dentro da rotunda o ciclista tem que ceder passagem ao mudar da via da esquerda para a da direita, para sair da rotunda).

Os pontos rosa são pontos de conflito envolvendo peões, e onde o ciclista deve ceder passagem aos peões (passadeira e passeio).

Quanto à escolha do traçado na rotunda, acho esta imagem interessante, mas claro que discutir isto sem a participação de quem desenhou e de quem implementou as coisas é sempre pobre. Há condicionantes e opções que tiveram que ser tomadas e que ajudarão a explicar e/ou justificar algumas coisas e que nós desconhecemos.

Voltando ao percurso completo, façamos a comparação para a ligação dos mesmos 2 pontos. Volto a enfatizar que não, isto não pretendeu ser uma experiência científica, é apenas um teste tosco. Mas acho que dá para ilustrar pontos importantes.

CICLOVIA vs. ESTRADA:

  • Tempo: ~3 min vs. ~2 min
  • Distância: não medimos, mas o percurso pela ciclovia é cerca de 100 metros mais longo
  • Pontos de conflito: 10+3 vs. 8+2

Ou seja, imaginem que querem usar a bicicleta para ir para o trabalho, ou outro sítio num contexto em que a velocidade é mais importante do que a fruição da experiência da viagem em si. Usando estes valores poderíamos ter algo como 30 minutos pela ciclovia e 20 minutos pela estrada. O que significa que, optando pela ciclovia, a pessoa gasta MAIS tempo na viagem para supostamente circular em maior segurança mas na realidade está MAIS exposta ao risco de acidentes do que se fosse na estrada. De notar que uma ciclovia no passeio aumenta ainda o risco a que os peões estão expostos ao circular no mesmo.

Contudo o que muita gente defende é que não interessa se estamos a colocar as pessoas numa situação efectivamente MAIS perigosa desde que elas se sintam mais seguras. Ou seja, acham bem criar uma espécie de ratoeiras para ciclistas (aumentando a segurança subjectiva enquanto diminuem a segurança objectiva).

Não se esqueçam que as ciclovias são (ou poderão ser) criadas com (entre outras) a intenção de atrair ciclistas de qualquer nível de aptidão. A ideia é baixar o nível de exigência nas competências do ciclista para ele poder navegar na cidade e assim usar a bicicleta quando antes não o faria porque se sentiria mal preparado ou vulnerável para navegar na rede viária normal. O problema, grave, é que a navegação nas ciclovias exige MAIS aptidão, e não menos, porque estas tornam o sistema viário mais complexo, e multiplicam os pontos a que os condutores (de bicicletas e de automóveis) e os peões têm que prestar atenção, o que multiplica as oportunidades para as coisas correrem mal.

E a pergunta que interessa aqui é: “o que é que eu faria diferente?“. Pelo menos para que fosse possível continuar a incentivar pessoas sem formação e/ou sem capacidade para usarem a rede viária normal a optarem pela bicicleta.

Há pelo menos duas coisas fundamentais que me ocorrem agora:

    1) reduzir o número de pontos de conflito.

    O exemplo dado na foto do “Detesto a minha burra” faz justamente isso na rotunda.

    2) aumentar a segurança do ciclista ao passar por cada um desses pontos.

    Isto implica tratar esses cruzamentos de modo a obrigar quem circula na rede viária a ceder SEMPRE a passagem a quem circula na ciclovia (no caso português isso implica sinalização vertical dado que nem quando se apresentam pela direita os ciclistas têm prioridade na passagem pois são discriminados negativamente no Art. 32 do CE). E faria a ciclovia nivelada com a estrada, para vincar que se trata de um cruzamento de 2 vias e não um atravessamento de 1). Se calhar, para reforçar essa sinalização e proteger ainda mais o ciclista, até faria com que a ciclovia fosse sobreelevada ao longo dos cruzamentos. Isto tornaria a deslocação do ciclista confortável, facilitar-lhe ia a tarefa de ver e ser visto, e funcionaria como uma lomba de acalmia de tráfego para obrigar os condutores de automóveis a abrandar dando-lhes tempo para ver os ciclistas a aproximarem-se e para parar.

Mas este tipo de ciclovia se calhar não interessa a muita gente, porque diminuiria efectivamente a competitividade do automóvel na mesma medida em que aumentaria a da bicicleta (a sinalização só prejudicaria o fluxo automóvel quando houvesse ciclistas, pelo que se houver poucos não afecta muito, e se houver muitos, bom, também têm direito a passar a a chegar depressa onde querem; já as ciclovias sobreelevadas em lomba já prejudicam o fluxo automóvel mesmo quando não há ciclista a passar…). E esta ciclovia conseguiria fazer isto oferecendo benefícios reais ao ciclistas em termos de segurança, conforto e eficiência e não o contrário.

Será que isto não aumentaria a massa crítica de ciclistas?

Será que isto não aumentaria o shift modal do automóvel para a bicicleta (em vez de ser essencialmente dos TP e do andar a pé)?

E os custos de construir uma ciclovia assim não serão muito superiores ao de construir uma ciclovia como as que temos, presumo. Nem demoraria muito mais tempo.

Claro que os novos ciclistas atraídos para a bicicleta continuariam a não saber conduzir fora das ciclovias nas estradas e ruas não “traffic calmed“, o que numa cidade sem muito espaço nas ruas para ciclovias e sem dinheiro para luxos é um ponto relevante, parece-me.

É nossa responsabilidade enquanto ciclistas ter um olhar crítico e uma voz audível e construtiva na avaliação das infraestruturas construídas em nosso nome e supostamente para nos servir. Para isso temos que estudar, pensar, conversar, debater. Até o cérebro doer.

Agora vejam outros vídeos comentados, mas da Holanda.

Este post não é sobre as ciclovias de Lisboa, é sobre as ciclovias de Portugal, apenas escolhi este exemplo porque era aquele para o qual até tinha um vídeo. Mas os resultados não seriam muito diferentes se isto fosse replicado a outras ciclovias por aí.

Centro urbano com e sem carros

Por cá gostamos muito de copiar os holandeses e as suas ciclovias, mas esquecemo-nos de tudo o que está à volta.

Aqui um “antes & depois” que poderíamos e deveríamos ver por cá:

Food Inc

Vejam.

Caso não se apercebam, isto também tem a ver com as bicicletas, com a mobilidade sustentável, com as cidades “vivas”, etc, etc, basta “connect the dots“.

Airbag para cavaleiros

Primeiro os capacetes, depois a roupa reflectora, em breve um airbag para ciclistas? Já há ideias para um para cavaleiros

[Via já não sei quem...]

Asneiras espalham-se from top to bottom

Eu não devia saber mais que um profissional disto, certo? Ou melhor, um profissional não devia saber menos que eu, que estudo isto por gosto e interesse não remunerados e perco um tempo estúpido com estas cenas quando devia estar a trabalhar. É que em mim só acredita quem quer, mas quando se é uma autoridade no assunto o efeito do que se diz é diferente…

Cortesia do Sub-Comissário José Ferreira, da PSP, medidas de segurança obrigatórias e suplementares para os utentes da via pública, nomeadamente ciclistas:

[Via]

Ficamos logo a pensar que o uso de capacete é obrigatório, e ficamos sem saber que os reflectores, além das luzes, também são obrigatórios. Ficamos também a pensar que é obrigatório, nas bicicletas, ter as luzes instaladas sempre, mesmo quando a sua utilização não é exigida por lei (ex.: quando circulamos de dia e com bom tempo). Parece que os peões (aqui referem-se mais ao peregrinos, parece) também devem usar coletes reflectores e luzes.

Depois há os belos exemplos dos ciclistas a circular rente ao lancil do passeio, na “door zone“, a facilitarem “right hooks” no entroncamento à direita, etc. A sinalizarem sem olharem antes (ou seja, a sinalizar para o boneco), a manterem o sinal enquanto se aproximam, numa descida, de um entroncamento à esquerda (fragilizando o seu controlo da bicicleta no processo, quando os motoristas atrás já foram informados da viragem).

Mas nem tudo é mau. As outras informações foram bem dadas.

Na página 65, Edição 74 da Transportes em Revista temos, cortesia da Coordenadora de Estudos do Centro de Estudos de Arquitectura Paisagista, Manuela Magalhães:

Há uma falha enorme, há elementos que faltam a todos os níveis na legislação, desde aquele que considere a bicicleta como um veículo, coisa que neste momento não existe para nós. Isto a um nível geral, para que depois sendo a bicicleta um veículo passe a ter normas de utilização e de utilização na relação com os outros veículos.

Fantástico. Pessoas que desconhecem totalmente o enquadramento legal da utilização e condução de um veículo são responsáveis, em Portugal, por desenvolver vias de circulação para os mesmos.

Artigo 112.º do Código da Estrada – Velocípedes

1 — Velocípede é o veículo com duas ou mais rodas accionado pelo esforço do próprio condutor por meio de pedais ou dispositivos análogos.

Cortesia de Tiago Paulino, Eng. Mecânico do Instituto Superior Técnico, que “estuda os acidentes com veículos de 2 rodas”:

«Bicicletas circulam sem regras»

Recolhi os dados de 2005 e concluí que, nos 1271 acidentes com condutores de velocípedes nesse ano, apenas 9 ciclistas usavam capacete e nenhum desses morreu. A utilização ou não deste dispositivo de segurança previne lesões graves e pode significar a diferença entre sobreviver ou morrer.

É a chamada lógica da batata. Gosto particularmente da confiança com que ele diz que o capacete “previne lesões graves e pode significar a diferença entre a vida e a morte”. Deve ter escondidos na gaveta uns estudos que podem revolucionar toda esta polémica.

Cortesia de João Dias, investigador do Instituto Superior Técnico, “especialista em segurança rodoviária”:

«Aposta nas bicicletas»

A bicicleta perde a prioridade nas rotundas, entroncamentos e cruzamentos, ao contrário das motas.

Esta afirmação induz os leitores num erro gravíssimo. A perda de prioridade dentro das rotundas foi algo rectificado nas alterações ao CE em 2005… E os ciclistas só perdem a prioridade que lhes seria reconhecida pela lei geral do “quem se apresenta pela direita passa primeiro” em cruzamentos e entroncamentos não sinalizados (que são relativamente raros em meios urbanos). Uma nuance importante aqui são os acidentes por “left cross”, em que o ciclista segue em frente e um veículo em sentido contrário se atravessa à sua frente para virar num entroncamento à sua esquerda, situação em que o ciclista perde efectivamente a prioridade (o que não aconteceria se fosse um veículo motorizado – discriminação negativa).

O capacete é muito importante para evitar lesões graves. Das vítimas mortais de 2006, só 15 % usavam capacete na altura do acidente.

Partilha da opinião do Tiago Paulino, pelos vistos. Reconhece poderes miraculosos aos capacetes (que nem os seus fabricantes reconhecem).

Enfim, e assim seguimos alegres e contentes…