Archive for the 'política' Category

Tiro ao lado, EMEL

Já sabem aquela da EMEL ir disponibilizar bicicletas para os seus clientes de avença poderem alugar? Não, ainda não está no site deles, têm mesmo que se basear nos press releases

À partida parece uma iniciativa em prol da mobilidade sustentável, incentivar as pessoas a deixar o carro no parque e a pedalar o resto do caminho, muito pró-bicicleta, modernista e tal.

Mas depois de pensar um bocadinho, a tentar analisar a lógica (ou falta dela) do “incentivo”, apercebi-me de que estava a analisar a coisa errada, no fundo.

A EMEL é a “Empresa Pública Municipal de Estacionamento de Lisboa”, notem que é de “estacionamento” e não de “estacionamento automóvel”. Aliás, essa abrangência está patente na missão da empresa:

(…)tem como objecto a gestão da concessão do estacionamento público no Município de Lisboa, estacionamento esse integrado no sistema global de mobilidade e acessibilidades definidos pela Câmara Municipal de Lisboa.

A construção, gestão, exploração e manutenção de locais de estacionamento público, bem como a elaboração e promoção de estudos e projectos de parques de estacionamento, mobilidade e acessibilidade urbana são algumas das principais áreas de que a EMEL se tem ocupado para melhorar a qualidade de vida dos Lisboetas.

E também na declaração do “responsável dos novos produtos”:

O “B’ina” cumpre um dos objectivos estratégicos da empresa: «proporcionar um conjunto de medidas, acções e produtos condizentes com a mobilidade sustentável, que ajudem a melhorar a qualidade do ambiente e a diminuir a circulação automóvel em Lisboa», explica Sérgio Azevedo.

E eu pergunto: onde estão os lugares para bicicletas nos parques de estacionamento da EMEL?

Enquanto não temos “bike stations”, estes parques são o que de mais parecido poderíamos ter. Bastava abdicar de 1 lugar de automóvel para poder acomodar 10 a 20 bicicletas (há sistemas de parqueamento de 2 andares). Para estacionamento de longa duração (tipo, para quem vai de bicicleta para o trabalho ou para a escola), a possibilidade de ter a bicicleta num sítio coberto, de acesso limitado, vigiado, com um suporte adequado, etc, é um incentivo importante. Mesmo que fosse pago (que acho que não deveria ser até cada parque exceder as 40 bicicletas de procura), o valor justo seria baixo o suficiente para não ser um desincentivo (1/10 a 1/20 do preço por automóvel, ou menos, dado que as bicicletas não degradam as instalações como os carros).

Uma pessoa é forçada a concluir que ou a EMEL resolveu fazer um pouco de greenwashing automóvel mandando uns press releases a agitar umas bicicletas no ar, ou são bem intencionados mas completamente clueless, coitados (e não é por nunca ninguém lhes ter dado mais ideias)…

Fontes de energia

Na minha factura doméstica da luz aparece um gráfico a indicar as fontes de energia eléctrica usadas. A electricidade que consumi em Maio tem origem (valores arredondados):

eólica – 32 %
gás natural – 20 %
hídrica – 21 %
co-geração e microprodução – 14 %
carvão – 4.3 %
nuclear – 3.6 %
outras – 5 %

O que é que uma pessoa faz se quiser, enquanto consumidor, privilegiar um fornecedor de energia eléctrica “limpa”? Como é que eu posso consumir apenas electricidade proveniente de fontes eólicas, de micro-produção e de co-geração (sem ter que me tornar um micro-produtor de energia)? Não quero consumir gás natural, nem carvão nem energia nuclear…

Vi há dias este documentário, Gasland, e fiquei horrorizada. Obviamente que podemos andar aqui a brincar ao greenwashing dos automóveis e a torná-los híbridos ou mesmo eléctricos, mas isso não é a solução. Precisamos de fazer um downsizing brutal ao nosso consumo de energia e isso implica mudar muita coisa no nosso estilo de vida, no desenho e organização das nossas cidades, na nossa indústria, e no quadro económico/legislativo/fiscal. E para que isso não tenha que equivaler a um downgrade, as alterações terão que ser fundamentalmente nos cidadãos, para que ainda haja energia para as coisas essenciais (transporte de mercadorias, fabrico de bens de consumo, etc), ÁGUA, terra, etc, sem que estas se tornem insuportavelmente caras só para que o zé médio e a maria representativa possam fazer 40 ou 50 Km por dia sozinhos num carro de 5 lugares + bagagem.

Para quem não conseguir obter o doc todo, aqui fica um glimpse:

Watch the full episode. See more NOW on PBS.

Activismo de sofá: Optimus Alive

Ontem fiz mais um pouco do meu activismo de sofá:

From: anabananasplit
To: geral @ everythingisnew . pt
Subject: info transportes
Date: 06/03/2010 09:08:03 PM

Olá,

Vi há pouco a sondagem no vosso site, acerca do meio de transporte a usar para ir ao festival. Contudo, reparei que essa sondagem e, paralelamente, a vossa secção “Como chegar”, ignora completamente 3 opções que deveriam ser promovidas, a par dos transportes públicos:

1) ir a pé
2) ir de bicicleta
3) ir de moto

A opção carro deveria ser fortemente desencorajada. 1000 ou 2000 automóveis a querer aceder, passar e estacionar naquela zona é intolerável. Gera poluição, ruído, insegurança, e origina situações de estacionamento selvagem que danifica os passeios e outros equipamentos públicos, e dificulta a circulação dos peões. Não se admite isto num sítio integrado na malha urbana, plano, e onde há um interface de transportes públicos que inclui comboio, eléctrico e autocarros.

A bicicleta e a moto poderiam ser incentivadas oferecendo um local de estacionamento para as mesmas num local apelativo (mesmo à entrada do recinto), vedado, vigiado, e com boas estruturas onde encostar as
bicicletas e onde as prender (tal como as motos). Isto deveria ser publicitado com antecedência.

O mundo muda-se todos os dias, basta querer.

Grata pela atenção.

Cumprimentos,

Mandem a vossa posta também. Os amanhãs fazem-se hoje!

«Elevemos o concelho de Oeiras ao nível do seu potencial»

O Carlos Filipe Maia, Editor da revista 30Dias, da CMO, teve a amabilidade de me convidar para escrever uma crónica para a rubrica “Marginália”. Isto mesmo conhecendo o meu “estilo”. :-) O resultado foi uma oportunidade que agarrei com todos os dedos, para falar do que falta a Oeiras: walkability…. Quê, pensavam que ia falar de bicicletas, não? :-P Não, o andar a pé e tudo o que isso implica, reflecte e provoca, é MUITO mais importante que a bicicleta. Isso vem, naturalmente, depois.

O PDF está aqui.

Gostam da foto? Implicou tirar várias fotos, em 3 dias seguidos. Ora a luz sucked, os carros não ficaram no sítio certo, o vento era tanto que o cabelo ficava no ar, etc, etc. :-P Escolhi esta foto porque é numa paragem de autocarros emblemática daquilo a que me refiro no texto. E não faltam outras do género por aí. Também tem a vantagem de não ter que se ver muito bem a minha cara, lol! Já me basta o andar de bicicleta para me tirar da minha mui estimada invisibilidade. ;-)

Proibido abancar no passeio

Primeiro criaram os passeios e as passadeiras para deixar livre para os automóveis a maior parte da rua, proibindo as pessoas de estar, circular ou atravessar a estrada fora dos passeios e das passadeiras. Em breve irão proibir as pessoas de estar nos passeios. O cúmulo da extirpação do direito ao espaço público, do direito a não vivenciar a rua apenas dentro de um carro.

Isto é muito mais além, e muito mais grave do que as medidas “anti-sentar”

Sim, é possível, basta querer.

Excelente vídeo sobre o urban sprawl na América, suas consequências e exemplos de soluções.

[Via]

O nosso problema é que arranjamos demasiadas desculpas para não fazermos as coisas, para não arriscarmos, para não interferirmos com o status quo, para não nos mexermos.

Dei um salto a Espanha

Sempre fui ao 3º Congres de la bicicleta, em Lleida, Espanha. E a viagem será financiada pelo trabalho de tradução de um velo-documentário, actualmente em curso. :-) Nunca viajei sozinha para o estrangeiro, e foi bom começar por um destino “aqui perto” geográfica e linguisticamente. :-)

Não tenho, neste momento, disponibilidade e disposição para fazer um relato como deve ser, pelo que deixo só umas impressões gerais. O tema do congresso foi a legislação e as infraestruturas, deixando de fora um vértice fundamental do “triângulo”: a formação. Dos ciclistas, dos motoristas, dos peões, dos técnicos, etc, etc. De resto, achei interessante e fiquei contente por ter decidido ir, mesmo que um bocado à última da hora (ah e tal, ir sozinha, e o que é que eu vou lá fazer, não conheço ninguém, yada yada yada). ;-)

Foi engraçado porque acabei por conhecer a Mane, do blog Biciene, que já conhecia por ter blogado um vídeo meu há tempos, mas que me reconheceu pela minha T-shirt, pois tinha encomendado umas para ela e para mais umas pessoas. “O mundo é um guardanapo”, como me disseram várias vezes durante a minha estadia por terras de Lleida. :-)

Tive ainda a oportunidade de conhecer e conversar com outras pessoas, espanholas, dinamarquesas e francesas, com quem aproveitei para estabelecer contactos para o projecto http://laws.bicicultura.org/

Entretanto hão-de-colocar as apresentações dos oradores online, aqui.

As minhas fotos estão aqui. Há mais aqui.

Fiquei alojada no “Jardins del Segrià” e só posso dizer coisas boas do sítio e das pessoas, nomeadamente do Antonio, que foi uma simpatia. Recomendo vivamente.

Foi interessante poder andar a pé por Madrid, deu-me um melhor insight sobre o que será andar de bicicleta por lá. E achei Lleida um espectáculo a nível de condições para os peões. Passeios impecáveis, passadeiras bem feitas, e rebaixadas, bancos e bebedouros nas ruas.

Passeios impecáveis

E carros estacionados em cima de passeios não enchem os dedos de uma mão. Disseram-me que foi por vontade política há uns anos (a polícia não perdoa) e as multas são elevadas, o que associado à Carta de Condução por pontos, resultou numa cidade civilizada. Por cá, é a mesma merda de sempre. Ainda não houve nenhuma viagem ao estrangeiro (Alemanha, Suiça, Espanha) da qual voltasse feliz e orgulhosa por voltar para o meu país por o achar tão ou mais avançado, mais agradável, ou mais eficiente. Talvez tenha que começar a viajar para fora da Europa, pelo menos… *sigh*

Adorei poder fazer os cerca de 500 Km entre Madrid e Lleida em pouco mais de 2 horas, no comboio de alta velocidade.

Working

Não gostei de ter que fazer os 600 e tal Km entre Lisboa e Madrid em 10h30min, overnight, num comboio desconfortável para o efeito (classe turista).

Lusitânia Comboio Hotel Lisboa-Madrid

Não percebo porque é que não podemos ter estações de transportes públicos (interfaces) como outros países têm, limpas, confortáveis, funcionais, legíveis, etc, etc.

Bom, adiante.

Cerca de 350 pessoas participaram neste congresso, o que mostra a importância crescente deste tema. Houve um intervalo para café em que me pareceu ouvir alguém a falar português, mas não tive oportunidade de lhes seguir o rasto e confirmar. Penso que se não era a única portuguesa lá, andaria lá perto. :-(

“Road vs. Cycling Facilities”

Outro exemplo de comparação entre “ciclovia” e estrada normal, desta vez no Reino Unido, este não da minha autoria:

[Via]

Analisar ciclovias

Em Maio eu e o Bruno fizémo-nos à estrada, em bicicleta, daqui de Porto Salvo até Lisboa, para irmos conhecer algumas ciclovias que estavam a ser finalizadas ou estavam já concluídas. E gravámos vários troços da viagem, incluindo um comparativo ciclovia vs. estrada no troço Monsanto-Campolide. Claro que, para não variar, esses vídeos ficaram em águas de bacalhau porque não temos tempo para os editar e transformar em algo útil. Ou mesmo que simplesmente giro. :-)

Há cerca de uma semana fui repescá-lo, o Bruno editou-o e publicou-o no YouTube, para servir de case study numa discussão sobre ciclovias na mailing-list da MUBi. Como a conversa morreu após o meu último (e mais gráfico) e-mail, resolvi não o deixar enterrado, talvez assim encontre terrenos mais férteis de discussão e debate…

Experiência tosca (única e não-científica) de avaliação comparativa da ciclovia Monsanto-Campolide:

De todo o percurso patente no vídeo, foquemo-nos na rotunda:

rotundacampolide2

Um ponto de conflito é um ponto onde diferentes fluxos de tráfego se cruzam, logo, que introduzem obstáculos no percurso, diminuindo a velocidade média da viagem, e são um foco potencial de acidentes.

Os pontos vermelhos e azuis escuros são pontos de conflito muito óbvios e localizados, e onde o ciclista é que tem que ceder passagem. De notar que o 4º ponto azul, dentro da rotunda, é um potencial ponto de conflito um pouco mais difuso (quem entra na rotunda tem que ceder passagem ao ciclista, mas uma vez dentro da rotunda o ciclista tem que ceder passagem ao mudar da via da esquerda para a da direita, para sair da rotunda).

Os pontos rosa são pontos de conflito envolvendo peões, e onde o ciclista deve ceder passagem aos peões (passadeira e passeio).

Quanto à escolha do traçado na rotunda, acho esta imagem interessante, mas claro que discutir isto sem a participação de quem desenhou e de quem implementou as coisas é sempre pobre. Há condicionantes e opções que tiveram que ser tomadas e que ajudarão a explicar e/ou justificar algumas coisas e que nós desconhecemos.

Voltando ao percurso completo, façamos a comparação para a ligação dos mesmos 2 pontos. Volto a enfatizar que não, isto não pretendeu ser uma experiência científica, é apenas um teste tosco. Mas acho que dá para ilustrar pontos importantes.

CICLOVIA vs. ESTRADA:

  • Tempo: ~3 min vs. ~2 min
  • Distância: não medimos, mas o percurso pela ciclovia é cerca de 100 metros mais longo
  • Pontos de conflito: 10+3 vs. 8+2

Ou seja, imaginem que querem usar a bicicleta para ir para o trabalho, ou outro sítio num contexto em que a velocidade é mais importante do que a fruição da experiência da viagem em si. Usando estes valores poderíamos ter algo como 30 minutos pela ciclovia e 20 minutos pela estrada. O que significa que, optando pela ciclovia, a pessoa gasta MAIS tempo na viagem para supostamente circular em maior segurança mas na realidade está MAIS exposta ao risco de acidentes do que se fosse na estrada. De notar que uma ciclovia no passeio aumenta ainda o risco a que os peões estão expostos ao circular no mesmo.

Contudo o que muita gente defende é que não interessa se estamos a colocar as pessoas numa situação efectivamente MAIS perigosa desde que elas se sintam mais seguras. Ou seja, acham bem criar uma espécie de ratoeiras para ciclistas (aumentando a segurança subjectiva enquanto diminuem a segurança objectiva).

Não se esqueçam que as ciclovias são (ou poderão ser) criadas com (entre outras) a intenção de atrair ciclistas de qualquer nível de aptidão. A ideia é baixar o nível de exigência nas competências do ciclista para ele poder navegar na cidade e assim usar a bicicleta quando antes não o faria porque se sentiria mal preparado ou vulnerável para navegar na rede viária normal. O problema, grave, é que a navegação nas ciclovias exige MAIS aptidão, e não menos, porque estas tornam o sistema viário mais complexo, e multiplicam os pontos a que os condutores (de bicicletas e de automóveis) e os peões têm que prestar atenção, o que multiplica as oportunidades para as coisas correrem mal.

E a pergunta que interessa aqui é: “o que é que eu faria diferente?“. Pelo menos para que fosse possível continuar a incentivar pessoas sem formação e/ou sem capacidade para usarem a rede viária normal a optarem pela bicicleta.

Há pelo menos duas coisas fundamentais que me ocorrem agora:

    1) reduzir o número de pontos de conflito.

    O exemplo dado na foto do “Detesto a minha burra” faz justamente isso na rotunda.

    2) aumentar a segurança do ciclista ao passar por cada um desses pontos.

    Isto implica tratar esses cruzamentos de modo a obrigar quem circula na rede viária a ceder SEMPRE a passagem a quem circula na ciclovia (no caso português isso implica sinalização vertical dado que nem quando se apresentam pela direita os ciclistas têm prioridade na passagem pois são discriminados negativamente no Art. 32 do CE). E faria a ciclovia nivelada com a estrada, para vincar que se trata de um cruzamento de 2 vias e não um atravessamento de 1). Se calhar, para reforçar essa sinalização e proteger ainda mais o ciclista, até faria com que a ciclovia fosse sobreelevada ao longo dos cruzamentos. Isto tornaria a deslocação do ciclista confortável, facilitar-lhe ia a tarefa de ver e ser visto, e funcionaria como uma lomba de acalmia de tráfego para obrigar os condutores de automóveis a abrandar dando-lhes tempo para ver os ciclistas a aproximarem-se e para parar.

Mas este tipo de ciclovia se calhar não interessa a muita gente, porque diminuiria efectivamente a competitividade do automóvel na mesma medida em que aumentaria a da bicicleta (a sinalização só prejudicaria o fluxo automóvel quando houvesse ciclistas, pelo que se houver poucos não afecta muito, e se houver muitos, bom, também têm direito a passar a a chegar depressa onde querem; já as ciclovias sobreelevadas em lomba já prejudicam o fluxo automóvel mesmo quando não há ciclista a passar…). E esta ciclovia conseguiria fazer isto oferecendo benefícios reais ao ciclistas em termos de segurança, conforto e eficiência e não o contrário.

Será que isto não aumentaria a massa crítica de ciclistas?

Será que isto não aumentaria o shift modal do automóvel para a bicicleta (em vez de ser essencialmente dos TP e do andar a pé)?

E os custos de construir uma ciclovia assim não serão muito superiores ao de construir uma ciclovia como as que temos, presumo. Nem demoraria muito mais tempo.

Claro que os novos ciclistas atraídos para a bicicleta continuariam a não saber conduzir fora das ciclovias nas estradas e ruas não “traffic calmed“, o que numa cidade sem muito espaço nas ruas para ciclovias e sem dinheiro para luxos é um ponto relevante, parece-me.

É nossa responsabilidade enquanto ciclistas ter um olhar crítico e uma voz audível e construtiva na avaliação das infraestruturas construídas em nosso nome e supostamente para nos servir. Para isso temos que estudar, pensar, conversar, debater. Até o cérebro doer.

Agora vejam outros vídeos comentados, mas da Holanda.

Este post não é sobre as ciclovias de Lisboa, é sobre as ciclovias de Portugal, apenas escolhi este exemplo porque era aquele para o qual até tinha um vídeo. Mas os resultados não seriam muito diferentes se isto fosse replicado a outras ciclovias por aí.

Centro urbano com e sem carros

Por cá gostamos muito de copiar os holandeses e as suas ciclovias, mas esquecemo-nos de tudo o que está à volta.

Aqui um “antes & depois” que poderíamos e deveríamos ver por cá:

Food Inc

Vejam.

Caso não se apercebam, isto também tem a ver com as bicicletas, com a mobilidade sustentável, com as cidades “vivas”, etc, etc, basta “connect the dots“.

Pela liberdade de não-religião

A liberdade de religião parece ser uma liberdade de pensamento, crença e expressão específica. No entanto é perniciosa, mesmo que não na letra da lei, ao subentender que este pensamento/crença/expressão não pode ser criticada ou ridicularizada como qualquer outra (astrologia, vegeterianismo, poligamia, whatever). E pior, parece subentender que essa liberdade de religião anula os direitos associados à liberdade de não-religião.

Bom, esta pequena intro só para assinalar esta marcha dos ateus e agnósticos na Polónia, terra do Papa João Paulo II.

Dia do parque de ajardinamento? :-P

Com as devidas diferenças de escala, isto faz-me lembrar o Chiado à hora de ponta:

Aqui fica um relato do Park(ing) Day, uma iniciativa de que tive conhecimento há alguns anos e que sempre sonhei fazer acontecer aqui em Portugal. Ver muitas daquelas fotos e daqueles parques tão lindos dá-me uma esperança renovada num futuro diferente, mais verde, mais human-friendly, e adoraria vê-la infiltrar-se e crescer aqui por terras lusas (que bem precisam!).

Essa oportunidade ainda não se proporcionou, mas já houve pelo menos umas 3 iniciativas do género, de que eu tenha conhecimento. Uma relacionada com bicicletas, no Porto, na prática foi usar um lugar de estacionamento automóvel para o ocupar com bicicletas. Uma associada a uma campanha da Ben & Jerry’s, e uma Park(ing) Day em 2009, pelos Cidadãos por Lisboa. Foto cortesia do Miguel:

Park(ing) Day na R. dos Fanqueiros, em Lisboa

Também gosto do efeito de plantar árvores no alcatrão:

Sempre dá um efeito de acalmia de tráfego mais interessante: dos carros, em vez dos peões, como acontece actualmente com as árvores que temos nos passeios. ;-)

Porto Salvo a precisar de ser salvo

Abriu hoje oficialmente um novo hipermercado em Oeiras, mais concretamente numa zona em Porto Salvo, entre o Casal da Choca, o Bairro dos Navegantes e Talaíde.

Isto devia ser proibido por lei

É a maior loja / posto de venda do Grupo retalhista “Os Mosqueteiros” em Portugal. Numa área bruta de 12.3 mil m2, há uma galeria comercial com 3 hipermercados: Intermarché, Bricomarché e Roady, e mais 10 outras lojas. Inclui ainda um parque de estacionamento para 650 automóveis. O investimento total foi de 20 milhões de euros, e diz-se criar 150 postos de trabalho.

Estes 150 novos empregos talvez cubram os que serão extintos no comércio de rua. Não culpo só os Mosqueteiros por isto, contudo. A culpa é dos próprios comerciantes, que muitas vezes param no tempo, não inovam, não se unem para melhorar as suas ruas e comunidades (e, logo, os seus negócios). A Rua do Comércio está tão atravancada de carros que há lojas que eu nem sabia que estavam ali porque estão tapadas pelos carros.

IMGP9872.JPG

E a culpa é das Juntas de Freguesia e das Câmaras Municipais, que deixam o espaço público degradar-se, tornando o comércio de rua, local, pouco apelativo, ao mesmo tempo que permitem coisas como este novo hiper-hipermercado.

Talvez não haja 650 automóveis no Casal da Choca, ou em Talaíde, ou no Bairro dos Navegantes. Estas ruas locais, residenciais, já são usadas às horas de ponta como atalhos para fugir às artérias principais (Estrada de Talaíde/Estrada de Leião e Variante à Estrada Nacional 249), aumentando o ruído, a poluição e a insegurança de quem cá vive e de quem cá circula. Os miúdos que vivem no Bairro dos Navegantes vão a pé para a escola de Talaíde (onde eu também andei). Hoje em dia é uma estrada oficial, alcatroada. No meu tempo era uma cena tortuosa em terra batida, lama no Inverno. Continua sem ter um passeio, ou sequer berma alcatroada (fizeram um passeio arborizado a ligar o Bairro dos Navegantes à Rua Lopo Soares de Albergaria, a estrada cá em cima, para as pessoas chegarem à paragem dos autocarros, mas ficou por aí). Afinal, que se fodam os peões, que se fodam as crianças que não são levadas à escola de carro pelos pais que depois estacionam em cima dos passeios e passadeiras (debaixo do nariz da “Escola Segura”…) para que os seus filhos (flores de estufa que não sabem e não podem andar na rua) não corram riscos, afinal, a estrada, a rua, é perigosa, está cheia de pais das outras crianças.

Será que a Câmara Municipal de Oeiras também vai pagar um autocarro para servir este hiper, como faz com o Oeiras Parque?

Por onde circularão os 5000 ou mais automóveis (650 lugares, umas 14 horas diárias de funcionamento, uma estadia média de 2 horas…) que este hiper atrairá? Por onde circularão as carrinhas e camiões que alimentarão este centro comercial? Só há 2 vias: Casal da Choca e Porto Salvo, e Talaíde -> Cascais ou Talaíde -> Porto Salvo, Cacém ou Barcarena.

What the fuck?!...

Ah, pois é, que se fodam as pessoas.

A zona do Casal da Choca e do Bairro Auto-Construção tem génese ilegal (depois regulamentada), e muitas das ruas não têm lugares de estacionamento definidos, e os passeios são estreitos.

Pai & filha

A qualidade do piso é geralmente boa. Toda esta zona precisa de ser reordenada. Os passeios precisam de ser alargados, arranjados, arborizados/ajardinados (uns bancos aqui e ali, e uns bebedouros seriam úteis) e protegidos. Actualmente as pessoas estacionam total ou parcialmente em cima dos passeios existentes.

Que se lixem os peões

As paragens de autocarros precisam de ser tornadas mais people-friendly. Há que estudar as necessidades de estacionamento e acautelar as essenciais (cargas e descargas, estacionamento de curta duração junto ao comércio e afins, etc). A maior parte das casas – moradias – tem garagem. Pode é haver mais carros do que lugares na garagem… A CMO pode criar zonas de estacionamento nos espaços vagos para os carros excedentes, a um determinado preço. Depois há que ver o espaço que sobra e redefinir os sentidos de trânsito, dada a largura das ruas, para acautelar espaço de circulação pedonal decente muitas ruas teriam que ser tornadas de sentido único. Isto, a par da implementação de zonas 30 poderia servir também para tornar pouco apelativa a fuga ao trânsito por estas ruas interiores.

A Câmara ou a Junta podia financiar autocarros escolares para as crianças que vêm de mais longe, e promover os pedibus dentro da Freguesia (acabam por existir intrinsecamente no caso dos miúdos do Bairro dos Navegantes, dado o número dos mesmos e a proximidade do Bairro). Se têm dinheiro para financiar autocarros para levar as pessoas para o hipermercado, quando elas têm alternativa local, também têm dinheiro para financiar autocarros para levar as crianças para a escola – estas não têm alternativa “local”.

Claro que isto sou eu a sonhar.

No programa eleitoral do Isaltino Morais, que ganhou novamente a Câmara de Oeiras, na secção “mobilidade” há 11 tópicos relacionados com vias rodoviárias (1 dos quais ciclovias), e 3 relacionados com transportes públicos colectivos.

Na secção “estacionamento”, pretendem criar mais 7800 lugares de estacionamento automóvel para residentes. Não dizem se é pago ou não, e se pretendem servir as necessidades de estacionamento do 1º, 2º, 3º ou 4º automóveis de cada agregado familiar… Nem uma palavra sobre estacionamento de motos e bicicletas.

Ora vejam se também detectam aqui alguma esquizofrenia (os bolds são meus)

O congestionamento progressivo das vias que estabelecem as ligações regionais e que integram a Rede Supra Concelhia (vias de elevada capacidade de transporte), a Auto-Estrada A5, a Marginal, a E.N.117, o I.C.17–CRIL e pelo I.C. 19, empurra os utilizadores do transporte individual para procurarem soluções alternativas de fluidez, através da Rede Viária Municipal, que atenuem esses estrangulamentos.

As soluções para a melhoria da mobilidade devem, pois, centrar-se em dois domínios estratégicos: a melhoria das acessibilidades no sistema viário e a criação de uma rede eficaz de transportes colectivos.

Oeiras apresenta-se hoje como um território de características eminentemente urbanas, podendo verificar-se a existência dos denominados períodos de ponta da manhã e da tarde, devidamente confinados, que se traduzem numa maior afluência de tráfego rodoviário e em alguns casos atrasos no atravessamento das intersecções.

Estas deslocações, centradas no transporte individual, têm custos sociais e ambientais significativos e, para além de se transformarem numa fonte de ineficiência na afectação de recursos e perdas de tempo, são uma fonte de degradação ambiental.

Esta redução de eficiência tem por base não só os volumes de tráfego nos períodos de ponta, na rede interna dos aglomerados e na rede regional, mas também o desempenho das próprias intersecções em alguns casos desajustadas.

A eliminação ou a atenuação dos estrangulamentos viários favorece a afectação de recursos mas não é, por si só, uma medida que faça diminuir os impactos ambientais.

Os objectivos que a este nível se alcançarão procuram uma opção combinada que terá necessariamente que se traduzir em novas soluções de reordenamento, de modo a capacitarem a rede viária para a absorção do tráfego gerado e, sobretudo, a aposta mais forte, centrar-se-á na construção de uma rede de transportes colectivos em sítio próprio, devidamente hierarquizada e que abranja todo o Concelho, de forma a garantir um melhor serviço, sobretudo ao nível das velocidades de circulação, tornando o Transporte Colectivo mais competitivo relativamente ao Transporte Individual.

Engraçado, reconhecem o impacto ambiental e a ineficiência associados ao transporte em automóvel, e a necessidade de apostar no transporte público colectivo. Mas depois afirmam que a solução está em ajustar a rede viária ao tráfego gerado, isto é, à procura (muita gente a andar de carro), pelo que há que alargar estradas e nós, e construir mais estradas, ignorando totalmente o paradoxo de Jevons, algo que podemos ver todos os dias: a Estrada de Leião, que atravessa Porto Salvo, está quase ao mesmo nível de congestionamento à hora de ponta que estava antes da construção da variante, pelo que agora continuamos sem poder sair de casa, mas temos menos dinheiro público (gasto na variante), mais barulho, mais poluição, etc, etc.

Por outro lado, defendem a melhoria dos transportes públicos colectivos, e pretendem apostar em modos com canais próprios (ex.: comboios, eléctricos, etc) para melhorar a velocidade comercial dos mesmos e, assim, torná-los competitivos com o automóvel. O mesmo automóvel cuja expansão em número de utilizadores e velocidade de circulação eles pretendem promover com tanta obra rodoviária. Parecem achar que melhorar a eficiência do sistema NÃO vai induzir mais utilizadores na rede rodoviária, mas que no caso dos transportes públicos um aumento de eficiência já tem esse poder de atrair mais utilizadores. Esquecem-se que se aumentam a eficiência dos dois concorrentes, fica tudo na mesma. É caso para pensar, então se mais estradas não vão aumentar o número de carros e até vão melhorar a experiência dos que já lá andam, quem irá utilizar os novos transportes públicos? Pela lógica, os novos aderentes aos TP seriam pessoas que antes andariam de carro e que se viraram para os TP porque estes oferecem melhor serviço, o curso natural das coisas se não se tentasse melhorar a eficiência da rede rodoviária e deixasse o caos seguir o seu caminho, quem sabe até dar alguma ajuda (e observando depois o efeito da Evaporação de Tráfego). Mas dado que não é o caso, como é que o TP em canal próprio, que implica investimentos avultados e pouca ou nenhuma flexibilidade no ajuste das rotas, numa zona suburbana (pouco densa), será competitivo com o automóvel, em que o condutor tem toda a liberdade e flexibilidade de ajustar os seus percursos e horários, e a rede viária é continuamente expandida para tentar oferecer-lhe velocidades de circulação inalteradas pelo crescente congestionamento/utilização automóvel?… Como é que as pessoas chegam ao TP em canal próprio? A pé? De bicicleta? De autocarro? Ou de carro?…

Há uns tempos que ando a resmungar que devia fazer alguma coisa, tinha umas ideias para pôr Porto Salvo (and beyond) no mapa do activismo e participação cívica, para mostrar alternativas, apontar problemas e sugerir soluções. Queria tornar Porto Salvo um sítio mais vivo, mais verde, mais amigo das pessoas, mais próspero e interessante. Depois lembro-me que não tenho tempo. Já tenho outros projectos adormecidos e como é que quero meter-me em mais um? E depois ponho-me a fazer estas coisas quando devia estar a trabalhar para ganhar a vida, ou então a descansar e a vivê-la, em vez de estar feita parva a tentar salvar um mundo que parece que não quer ser salvo.

*sigh*

Queria ganhar o Euromilhões, assim já podia trabalhar nestas coisas que ninguém paga, sem ter que me preocupar com de onde virá o dinheiro para viver. Mas não, geralmente isso sai a pessoas que querem essencialmente comprar casas, carros, e passar a vida de férias. :-P

Engraçado que, muitas vezes queixo-me de viver aqui no meio do nada, nem dá vontade de sair para ir à mercearia, etc, é tudo “longe”. E agora plantam-me um mega-hipermercado ao lado. Posso ir de bicicleta que nem há quase subidas (hell, I could walk there, com um trolley de compras e tal), mas não sei porquê duvido que haja estacionamento para bicicletas…

Well, let the hell begin…

Comparação dos programas eleitorais para as autárquicas em Lisboa

Foi hoje lançado o site www.lisboa09.pt.to, um trabalho desenvolvido pelo Bernardino Aranda e pela Rosa Félix.

Este site pretende comparar os programas das 4 principais forças candidatas à CML, compilando-os numa Grelha Comparativa dos Programas Eleitorais, que não só permite uma leitura rápida, sectorial e sintética das propostas concretas de cada candidatura, como permite, tema a tema, uma comparação entre as várias propostas.

Este PDF – um documento de 21 páginas – está disponível para consulta e download em www.lisboa09.pt.to

Nesse site, queremos também dinamizar o debate sectorial dos programas. Esperamos que na caixa dos comentários apareçam análises críticas e é também por isso que te convido a visitares o site, para conheceres o trabalho que desenvolvemos e para deixares lá um contributo, principalmente no tema da mobilidade!

Esperamos que tudo isto contribua para que os lisboetas conheçam melhor as propostas de cada candidatura, e também para um debate de qualidade e aprofundado sobre as políticas para Lisboa.