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Gostar de estar na merda

Esta música dá-me arrepios. E adoro a série, “Grey’s Anatomy”.

Tropecei neste vídeo por acaso, estava no Hi5 da minha prima, que está no auge da juventude, com os seus quase-quase 17 aninhos. :-)

Estar aqui a ouvir isto, a rever imagens familiares da série, invade-me um sentimento de tristeza, vulnerabilidade, helplessness, que me arrasta até à minha adolescência. E note-se que foi longa, precoce e prolongada. Acho que fui adolescente até ao fim da faculdade, ou seja até ao final de 2006. :-) Era assim que me sentia. Ainda me vejo um bocado como uma miúda. Tenho aspecto disso, até a voz. :-P Só me apercebo que já não sou mesmo uma adolescente quando me encontro no meio dos verdadeiros adolescentes. Aí, reality settles in. E como estou contente de essa fase da vida (minha e dos que com quem convivo) já ter passado, e de lhe ter sobrevivido. Sobreviver é a palavra aqui, porque com tantos traumas, decepções, angústias, incertezas, inseguranças, é um milagre saírmos vivos da adolescência, mais ainda se o fazemos com algum equilíbrio emocional. :-P No entanto, se sou adulta, não me sinto como pensava que um adulto se sentiria. Continuo com perguntas sem resposta, dúvidas, inseguranças, medos,… E fiz há uma semana 27 anos, quase trintona! :-P Não houve nenhum clique automático de transição, sou eu na mesma, only older and with a longer history.

Eu sei que os meus “verdes anos” foram um período terrível emocionalmente (e olhem que a infância também não tinha sido um mar de rosas). Durante esses anos devorei infindáveis filmes românticos, absorvi e curti sessões de choro ou de simples lying around a ouvir baladas românticas ou depressivas, mostly both, absorta nos meus próprios sentimentos, nas minhas desilusões e traumas amorosos, nas minhas inseguranças de me achar uma merda, unattractive, dumb and unintelligent, nas frustrações de sociabilização e das tentativas de fitting in and searching for people and places where I could belong. I never did fit in, and those people and places never were. Bom, algumas, por breves períodos. Mas nem tudo é mau, daqui a uns dias comemoro 7 anos de vida partilhada com the person where I belong. :-) Ainda não encontrei a place to belong, mas sinto que as minhas loucuras sobre rodas me levarão lá, de uma maneira ou de outra.

Não tenho saudades de ser adolescente. Aquela cena de nos sentirmos sempre na merda, ansiosos com o futuro, inseguros de nós próprios em tudo, inexperientes em tudo, os desgostos de amor, amar quem não nos ama, os desencontros amorosos (estados de desenvolvimento, expectativas, diferentes), as criancices dos colegas e dos “amigos”,…

Agora já não curto fossas com banda sonora. Claro que isso não tem só a ver com o ultrapassar da adolescência, mas também com o facto de ter encontrado alguém que mais do que me dar aquilo por que desesperadamente ansiava - um companheiro na verdadeira acepção da palavra - veio provar que tal pessoa realmente podia existir. Até aí tudo o que via acontecer à minha volta, nos filmes, livros, etc, me levava a crer que o sexo masculino era formado exclusivamente por sacanas ou simples desligados emocionais. Com essa perspectiva, não havia esperança nenhuma de um horizonte onde surgisse alguém com quem eu conseguisse estabelecer aquela deep and strong connection de que sentia que precisava como se de um transplante vital se tratasse.

Naquela altura essas músicas lindas tristes eram uma constante. Era aquilo que eu queria ouvir. É um paradoxo, mas era o que me fazia sentir bem sentindo-me mal. Era estúpido, claro, uma pessoa quando está na merda procura sair dela, e não ir-se enterrar mais nela. Mas os adolescentes são uma raça esquisita de gente. ;-) Aquilo é como uma droga, pá. Ouvimos aquilo porque nos sentimos deprimidos porque ouvimos aquilo que é deprimente e por isso mantemo-nos deprimidos e por isso ouvimos aquilo porque nos identificamos. :-P

Actualmente, há muitas coisas que me angustiam, mas nada que se compare àqueles anos todos de blues. Finding love is so fundamentally important, significant, urgent!, that I can’t help feeling sorry for all those people who can’t seem to find it. And where do you find love? How? I’m not even talking about chemistry. I’m talking about the brain, the “heart”… Love is compatibility, same-levelness in understanding, being able to build stuff together: projects, dreams. Sometimes, or for some people, it just doesn’t work out. Maybe it’s bad luck, maybe it’s a lack of willingness to see what’s in front of us, or even an inability to build a relationship. I think many people browse through partners like zapping, perhaps a modern Relationship Attention Deficit Disorder of some kind?

Uma coisa boa de envelhecer e de ter uma história com muitos baixos (mesmo que internally fostered), é que sabemos reconhecer as coisas boas quando as vemos e quando as vivemos. Temos a sensibilidade para tirar um instante e inspirar esses pequenos momentos, saboreá-los e sentirmo-nos infinitamente gratos ao universo por essa pequena mas milagrosa dádiva. Por isso sofrer é tão importante no crescimento de uma pessoa. Ele dá a medida das coisas, a métrica da vida. Dá os pontos de referência. É o que permite apreciar as coisas boas. Dá-nos uma noção das nossas forças e das nossas fraquezas, torna-nos mais humanos para com os outros. Alguém que passa pela vida sem sofrer não vive. A vida é como o sinal do batimento cardíaco num monitor de um hospital: aos altos e baixos. If it’s flat, you’re actually dead.

Uma pequena pausa

Não tenho tido tempo para blogar. Aliás, não tenho tido tempo para pensar. Pensar, pensar na vida, filosofar, assimilar a vida e interiorizar o que vai acontecendo. Esse tipo de coisas.

Ultimamente ando muito focada no projecto da CaP e em tudo o que a envolve. Sinto falta de maior dispersão de interesses, actividades, temas. Tenho “mil” ideias que gostaria de pôr em prática, mas tudo é lento. Falta o tempo, o dinheiro, o focus, por vezes… Para mal dos meus pecados, não tenho ideias lucrativas, tipo “this will make me rich“. Até porque é difícil essas ideias serem de cenas que ajudam as pessoas e não que as exploram. :-P Era bom ganhar um euromilhões chorudo ou ter nascido geneticamente dotada e saber e conseguir fazer tudo (ou muito) bem e depressa. :-P

Estou à espera que a minha vida comece, nunca me esforcei tanto para isso (em termos da relevância do esforço, that is…) como ultimamente, mas uma vida independente e encaminhada parece ainda um ponto num horizonte longínquo… No entanto, pela primeira vez na minha vida, faço aquilo que gosto (embora não apenas o que gosto) e isso dá-me uma sensação de vida com sentido, com objectivo, com valor. Sou uma pessoa muito focada no útil, no dever, no relevante,… e isso angustia-me quando ocupo o meu tempo com coisas cujo propósito não entendo ou não acho relevante ou uma mais valia para algo. Isto acaba por se revelar neste blog. Comparando-o com o primeiro que tive, no Spaces, este é muito mais focado num só tema, muito menos pessoal e sem aquelas pequenas histórias, produtos ou notícias do dia-a-dia.

Sinto falta de parar e pensar. E escrever. Divagar sobre a vida, as pessoas, o sexo, a política, a religião, a ciência, etc, etc… Estou a precisar de umas férias, mas pela primeira vez na minha vida, aquilo de que tiraria férias dá-me realmente muito gozo, pelo que não quero necessariamente tirar férias. :-P Talvez esta ideia de juntar o útil ao agradável não seja boa ideia, pois tornamo-nos uns workholics. Se adicionarmos o facto de o fazermos por conta própria, é uma escravização voluntária total. :-P

Quero viver numa eco-casa: feita com materiais não tóxicos, reciclados e/ou recicláveis sempre que possível, bioclimática (que não precise de arrefecimento nem de aquecimento artificiais), totalmente pensada por mim, para as minhas necessidades e preferências, com sistemas de redução de consumo de água e sua reutilização, sempre que possível (ex.: mini-bio-ETARs), com energia eólica e solar (térmica e fotovoltaica) para ser energeticamente independente na medida do possível. Com uma cozinha/sala-de-jantar-e-de-estar, 2 WCs, 1 quarto, 1 sala e um escritório/atelier/oficina, para dar asas à criatividade. :-) Não quero uma casa grande nem pequena, mas ampla. Para não me sentir presa dentro de casa, mesmo que pequenita, tenho que ter um quintal, com árvores, plantas, flores, e um pouco de relva para me deitar e passar uma tarde. Não quero ter carro próprio, mas ser associada de um bom serviço de carsharing. Considero a possibilidade de ter um mini-carro, tipo smart, ou algum eléctrico or something, mas preferia não precisar. Talvez uma mota tipo Vespa para as pequenas emergências. Mas quero locomover-me essencialmente by bike. Viver num local esteticamente aprazível, integrado na Natureza (e não a Natureza integrada na cidade, embora isso já fosse bom, se compararmos com o cenário dominante actual…), onde possa ir na boa de bicicleta até à mercearia, farmácia, padaria, supermercado, cinema, cultura, desporto,…. Muito importante: não trabalhar nem muito longe nem muito perto de casa, para fazer sentido e ser viável ir de bicicleta. :-) Talvez entre 5 e 15 km, por exemplo. O melhor seria uma carfree city ou uma urbanização sem carros (excepto os do clube de carsharing). Um local de vizinhos sorridentes (sabem a raridade que é encontrar pessoas que sorriam frequentemente nas interacções sociais sem ter que pensar nisso?), simpáticos, razoáveis, dinâmicos em termos de comunidade, virados para o futuro, com quem se pudesse conversar, discutir coisas abstractas ou mundanas, boas pessoas. Ah, e muito importante, o trabalho. Tem que ser algo na área do desenvolvimento de um modo geral, e do ambiente, e se possível da mobilidade e da acessibilidade. Não quero ter filhos, acho que não tenho o perfil de mãe, sou distante das pessoas na interacção directa, sou “mãe” no aspecto de querer cuidar das pessoas e melhorar as suas vidas, mas nos bastidores. Quero viajar, é aí que quero estoirar o dinheiro que conseguir ganhar. E em livros e bicicletas. :-P

Este é o filme que passa na minha cabeça. :-) É uma utopia, pelo menos aqui e agora. Mas as realidades de hoje foram concerteza utopias ontem. Alguém teve que acreditar que podiam ser realidade e trabalhar para isso. “Os amanhã fazem-se hoje”. Além disso, sem espaço para sonhar uma pessoa esmorece e a vida torna-se um vazio sem qualquer sentido…

“amo-te, és linda, deixa-me foder-te”

(…)Mas se precisa tanto de companhia por que não abre o coração a alguém?

Estou mal arranjo uma companhia?!? Arranjar mulher porque preciso de companhia era no tempo do Salazar. Respeito as pessoas. Uma mulher sentia-se bem com um homem que dissesse: ‘ amo-te, és linda, deixa-me foder-te’, só porque queria companhia e alguém à espera quando chegasse a casa? Se fosse mulher sentir-me-ia muito mal se alguém estivesse comigo só porque precisava de alguém à espera em casa. Prefiro tratar das minhas neuras sozinho.

Nunca diz ‘fazer amor’?

O amor não se faz, acontece. Essa expressão é feíssima. Ama-se, faz-se sexo, mesmo que seja com amor. Isso é um preconceito português de achar que foder é só com as putas. Um dos grandes tabus da humanidade continua a ser o sexo. Como é possível viver os dias de hoje sem prazer? O sexo não serve só para procriar! Acho a expressão ‘fazer amor’ muito pouco ‘tesuda’.(…)

Trecho de uma entrevista ao Rogério Samora, publicada na revista Tabu, do jornal Sol, de 27/10/2007.

Achei interessante o que ele disse. Realmente, o amor não se faz, acontece. Depois pode ser enriquecido e fortalecido com outras coisas, mas é algo que “acontece”. Já o sexo faz-se. A expressão “fazer amor” é muito certinha e politicamente correcta. Mentalmente associo-a a sexo essencialmente “ternurento”. :-P É uma expressão “fofa”, querida, doce, segura de utilizar em qualquer contexto. Já “fazer sexo” soa-me estranha, tipo linguagem médica ou científica. Depois há as “relações sexuais”, que é algures entre “fazer amor” e “fazer sexo”. Não faz sentido ser usada para descrever o sexo, ou faz? Porque parece que se refere à relação entre as pessoas envolvidas, querendo dizer que o sexo faz parte dessa relação, ou é aquilo que a define. Mas também pode ser uma relação afectiva, amorosa, fraterna, sei lá. :-P Não gosto muito da expressão, é cerimoniosa. Já “foder” é uma expressão muito mais interessante. Tem uma carga erótica muito forte e só o seu uso já é estimulante. A não ser que seja num contexto em que palavras deste género são ditas a torto e a direito, como adjectivos, verbos, substantivos e até pontuação. A banalidade cansa, e o uso destas expressões para significar insultos leva à descontextualização das mesmas, perdendo o seu sex appeal.

Vi algures que a palavra “foder” vem do “latim vulgar “futére”: ter relações com mulher”. Desconheço a razão por que tal palavra é usada para insultar. Se toda a gente gosta de sexo, porque é que é insultuoso dizer a alguém “vai-te foder” ou é mau sinal quando alguém diz “estou fodido”? Será que a opressão e desconsideração das mulheres pelos homens é que levou a que este tipo de expressões signifique, basicamente, que quem fode é o maior, está no topo da hierarquia, no controlo da situação, e que quem é fodido é lixado, humilhado?

Enfim, deambulações semânticas domingueiras. :-P

P.S.: Achei piada a esta adulteração de um ditado popular: “Deitar cedo e cedo erguer, só se for para foder.” lol Sou forçada a concordar.

Dilema planetário

O Mundo tem 2 opções: 1) controlar o crescimento populacional (reduzindo-o drasticamente até haver uma diminuição efectiva no número de seres humanos existentes a dado momento, ou 2) diminuir drasticamente as expectativas de consumo da população, nomeadamente a do Ocidente.

É impossível suportar o acordar dos gigantes Chinês e Indiano (e quem sabe um dia, africano), com a premissa de que aqueles milhões e milhões de pessoas cujo nível de vida está a melhorar e a engordar uma classe média gigantesca poderão aspirar a consumir os mesmos recursos naturais e a mesma energia que nós. Não há petróleo, terra arável, água potável nem matérias-primas suficientes para tal. E a Terra não acomodaria tanta poluição e depredação de recursos animais, vegetais e minerais sem grandes alterações no seu ponto de equilíbrio (exemplo das alterações climáticas em curso), cujas consequências poderão ser dramáticas para os humanos (e não só…).

Obviamente que a alternativa n.º 2 não será aceite por nenhuma das partes, uns porque não querem abdicar daquilo a que estão habituados a ter e os outros porque sentem que também têm direito a usufruir daquilo a que os “ocidentais” tiveram como garantido durante décadas. Resta a alternativa n.º 1. Esta provavelmente não vai ser resultado de nenhuma medida voluntária por parte das populações (a não ser que se verifique a nível mundial o que se verifica actualmente em países europeus, por exemplo, em que com o aumento do nível de vida as pessoas acabam por ter menos filhos do que outras em piores situações económico-sociais. Porque a auto-perpetuação está imbutida no nosso DNA e no nosso cérebro. E depois pensem só na aflição (e consequências) da política do filho único ou na frieza da selecção de casais com direito a reproduzirem-se… Provavelmente a diminuição da população humana dar-se-á através de guerras (as do costume ou as derivadas da sobre-exploração do planeta - a guerra pela água, por exemplo, ou por comida, causada por êxodos massivos devido a catástrofes ambientais), ou de doenças que arrasem grande parte das populações (”naturais”, ou causadas (ou exponenciadas) pelo desenvolvimento, como o cancro).

Será que alguma vez estaremos num período de paz generalizada e sem turbulências de dimensão planetária no horizonte?…

Tudo isto a propósito deste artigo.

Maybe we should all just save ourselves (and the Earth) the trouble and go peacefully and voluntarily extinct. ;-)

Paradoxo

Já repararam em como os anúncios a automóveis mostram sempre alguém a andar de carro no meio do nada, com as montanhas e os campos verdejantes a emoldurar, passando por caminhos silenciosos?

Dado que a maior parte do tempo usamos os carros no meio da paisagem seca e feia da cidade, sem verde, só alcatrão e milhares de outros carros a fazer barulho e fumo, não será isto publicidade enganosa? Bom, talvez não, mas é concerteza muito whishful thinking

Também tenho reparado em dois factos muito interessantes. O primeiro é a publicidade galopante ao automóvel como produto de consumo. Às vezes passo por zonas de outdoors em que TODOS têm anúncios a carros… Outro é o aumento do número de jipes de luxo, “de cidade”, que se vêem na estrada. Muitos têm os vidros fumados. Para começar acho que devia ser proibido fazer “jipes urbanos”. E se eu quiser fazer um camião de luxo, urbano e utilitário? Só para aumentar o conforto e a segurança contra o carjacking… Se é para andar na cidade não precisam de jipes. Sim, ok, há zonas que mais parecem a superfície lunar, mas even though. Ou será para galgarem melhor os passeios e afins onde muitos se lembram de estacionar os carros?… Duvido que aquele pessoal tenha comprado os jipes para andar nas terras de vez em quando… Que sentido faz comprar um jipe para andar diariamente na cidade?! Não percebo…

E o aspecto cada vez mais “blindado” dos carros? Qualquer dia estamos como na América Latina… Serão as ruas assim tão sujas e perigosas que as pessoas escolham activamente isolar-se do mundo dentro do seu carro? Acho que isto começa a merecer uma análise sociológica. :-P

As mulheres grávidas não são donas de si próprias?

Tropecei nuns comentários e “bati os olhos” num parágrafozinho por um tal de Rui Barbosa, que passo a citar:

A Patrícia diz: “o corpo é da mulher, a mulher é que está a sofrer MAIS NINGUÉM TEM NADA A VER COM ISSO, ELA É QUEM MANDA EM SI!“. Eu digo: O corpo é da mulher mas o ser que está lá dentro não é propriedade dela!

Esta frase: “O corpo é da mulher mas o ser que está lá dentro não é propriedade dela!” Querem coisa mais humilhante, inferiorizante, ofensiva, brutal, que isto? A mulher não tem direito de propriedade sobre o seu próprio corpo. Sim, enquanto gera uma nova pessoa, até esta estar pronta pra nascer faz parte do corpo da mulher. Vai para onde a mulher vai, “come” o que a mulher come, fuma o que a mulher fuma, tem as doenças que a mulher tiver e o estado emocional desta repercute-se no feto. Para todos os efeitos é uma mulher grávida que ali está, não uma mulher mais outra-pessoa-cujo-nome-ainda-não-se-sabe-ou-não-se-registou. Se o feto está DENTRO da mulher como pode este tipo dizer que não é “propriedade” dela? Quiçá paga-lhe renda, aluguer, prestação do crédito à habitação?! Não é propriedade dela para parar o seu desenvolvimento até se formar um novo ser, mas é para ter todos os comportamentos e mais algum lesivos desse novo ser em formação (álcool, drogas, tabaco, má alimentação, medicação contraindicada,…). Isto ninguém pensa em criminalizar. Ora se um aborto de uma gravidez incipiente é tido como um homicídio, um assassinato de um ser humano, de uma pessoa, então estes comportamentos durante a gravidez não deveriam ser considerados como maus tratos e negligência?… É melhor começarem a instaurar inspectores da barriga das mulheres. E da vagina, trompas, ovários, etc. Just in case.

Sexo e amor e o casamento português

Porque não me quero casar:

«Dever de coabitação
Comunhão de leito:
débito conjugal – limitação lícita à liberdade sexual (ter relações sexuais com cônjuge e não ter com terceiro) – violação: recusa sistemática, injustificada e prolongada (JDP

O casamento implica o cumprimento de “deveres conjugais” como as relações sexuais (”comunhão de leito”). A falta delas pode ser motivo para um divórcio. Mas a falta de amor, ou “o fim do amor” não é razão legítima para justificar um pedido de divórcio litigioso, à luz da nossa Lei. Tem que se alegar “divergências incompatíveis”.

Engraçado como a cola que permite às pessoas manterem-se juntas e felizes (muita gente permanece unida mas a contragosto, por motivos mais pragmáticos) não é tida nem achada no contrato de casamento. Mas o sexo é. Esta lei impede um casamento “aberto” do ponto de vista sexual, mas por omissão permite um casamento em que se ama várias outras pessoas mas não o cônjuge!

Mulheres e não só

Porque é que a mulher de um presidente da república é automaticamente nomeada “primeira-dama”, passando a fazer parte do Governo, dando a cara, ocupando-se de campanhas e obras humanitárias e de beneficiência? O povo elege o marido, não a mulher. E ela não tem profissão e vida própria? Porque tem que passar a desempenhar aquele papel? Será que nos (poucos) países com mulheres à frente da nação os maridos passam a acompanhá-la nos eventos de Estado? Passam a fazer de Lady Di versão masculina?

Há o ‘esposo’ e ‘esposa’ e depois há o ‘marido’ e ‘mulher’. A primeira designação parece muito pomposa. Geralmente usa-se a segunda. Mas eu acho-a um bocado “degradante” para a mulher. Não há um equivalente feminino de ‘marido’? Só as classes sociais mais baixas (e rurais?) costumam referir-se ao marido como “o meu homem”, ou “o teu homem”. ‘Marido’ soa mais a uma categoria de status. ‘Mulher’ é só a designação de alguém do sexo feminino. Em inglês há o ‘husband’ e ‘wife’, não é ‘husband’ e ‘woman’. Cá é como se houvesse o homem, e depois ele tem uma série de acessórios: a casa, o emprego, o carro, o cão, o gato, e a mulher. Tem “uma mulher”. Como quem tinha um escravo, ou como quem tem qualquer outro “objecto”. Are you following me on this? Mais uma razão para não me casar e poder referir-me ao Bruno como o meu namorado até já não ter dentes nem me lembrar que ele se chama Bruno. :-P Além disso, tem uma sonoridade muito mais doce que qualquer outra que se use vulgarmente (marido, namorado, companheiro, parceiro, esposo,…), porque tem lá metido no meio a palavra ‘amor’. :-)

Estou farta farta de ver anúncios a detergentes em que só aparecem mulheres, e que passam esta imagem estúpida de que só as mulheres lidam com roupa suja, só elas tomam decisões sobre detergentes, e como se a escolha de um detergente fosse uma questão fulcral na vida daquelas mulheres. Nota-se pelo ar de especialista que apresentam. Não há homens a viver sozinhos? Os homens não lavam roupa? Os homens não vivem na mesma casa e não fazem compras com as suas mulheres? Se as relações de poder de educação e de rendimento já estão alteradas porque se continua a publicitar os produtos baratos e de âmbito doméstico para um target group exclusivamente feminino e os produtos de luxo, lazer e status, para o masculino? Às vezes apetece-me vomitar nos intervalos publicitários televisivos… E os anúncios a telemóveis e a cenas tipo o GE Money? Over and over and over again! Repetem os mesmos anúncios 500 vezes num único ‘intervalo’. Não basta a monstruosa carga publicitária na televisão (e a começar no cinema!) ainda por cima são sempre os mesmos, apelando essencialmente ao sexismo e ao consumo inconsequente. A repetição deve ser pelo “água mole em pedra dura,…”….

Porque surgiu esta clivagem de designações estúpida na questão do aborto? “Pro-choice” e “pro-life”. Os pró-escolha também são pró-vida! Duh! Ou a maneira como os jornais falam do aborto cá em Portugal, qualquer coisa blá blá, “em defesa do aborto”. Dumb fucks! Ninguém ‘defende’ o aborto. Ninguém gosta da ideia de aborto, muito menos de ter que fazer um. O que se defende é o direito a optar por fazer um. É completamente diferente! Este tipo de escolha de palavras faz parecer que quem defende o direito à escolha gosta de sangue, morte, dor, e quer ver a humanidade extinguir-se porque não ser pró-vida significa ser pró-morte ou pró-não-ter-filhos-at-all.

A polémica não é “pessoas contra o aborto” vs. “pessoas a favor do aborto”, porque não há ninguém que seja a favor do aborto. O mesmo acontece com a eutanásia ou com a morte assistida ou com a morte por suspensão de tratamento médico. A questão é quem acha que em última instância cada indivíduo é responsável por si próprio e tem direito a si próprio. Ter direito a si próprio significa ninguém poder overrule as suas decisões que afectam exclusivamente a sua vida e o seu corpo. Significa ninguém me poder obrigar a morrer se eu não quiser, nem obrigar-me a viver se eu não quiser. Significa não poderem negar-me tratamentos médicos se eu tiver direito a eles, nem imporem-me terapias, tratamentos, medicamentos, transplantes ou transfusões contra a minha vontade. Isto deverá excluir crianças, pelo menos sempre que as decisões provenham de crenças e imposições dos pais (recusa dos Jeovás de permitirem transfusões sanguíneas aos filhos, preferindo deixá-los morrer, por exemplo). Significa também eu poder escolher como me sustento, para quem trabalho, e a fazer o quê = ter direito a não ser escravizada e usurpada da minha livre-vontade e arbítrio.

Também não percebo porque é que o Governo pergunta a opinião ao povo nalgumas questões mas noutras não. Não tenho voto na matéria quando se trata da minha reforma, mas tenho voto na matéria na reprodução dos outros…

Eu sou fervorosamente pela defesa do direito a si próprio. Mas não sei se seria capaz de abortar uma gravidez. Nem sei se teria força para deixar morrer alguém que amo. Mas não acho sequer remotamente justo alguém ir para a prisão ou ser socialmente ostracizado por exercer o seu direito à escolha e a viver a vida (ou deixá-la cessar) como entender melhor .

Estes idiotas que ocupam a vida a meter-se na vida dos outros e a tentar impôr-lhes as suas opiniões, preferências e comportamentos should get a fucking life! E o mais inacreditável disto é que eles são muitas vezes os primeiros a fazer o contrário daquilo que andam a pregar (afinal descobre-se que são gays, ou adúlteros, ou criminosos, ou viciados em pr0n, ou child molesters, ou alcóolicos, ou junkies, you name it).

Realmente, se há coisa que não suporto is nosy dumb people.

P.S.: De uma vez por todas, reivindicar o direito ao espaço público livre de fumo do tabaco NÃO é metermo-nos na vida dos outros (nomeadamente dos fumadores), nem impôr-lhes comportamentos. Isso aconteceria se se proibisse o consumo de tabaco nos espaços privados, se se proibisse o consumo de tabaco como se faz com outro tipo de drogas. O que se faz é impedi-los a eles de impôr o seu fumo aos outros.

Pricing na prostituição

Porque é que as pessoas (nomeadamente os media) se referem à actividade da prostituição como "vender o corpo"?

Uma prostituta ou prostituto vende um serviço. A não ser que se vendesse num contrato de escravidão é que além do serviço venderia o corpo. Ou não? Alguém que vende as suas ideias não "vende a alma" nem nada do género, certo? :-P
Pergunto-me como estabelecerão eles os preços dos seus serviços… Imaginem uma prostituta. Ela pode apenas vender o corpo. O cliente chega and all he really wants or needs is to screw somebody. A mulher pode ficar ali imóvel enquanto o cliente basicamente usa o seu corpo. Provavelmente isto sempre aconteceu com os casais das melhores famílias. ;-) Neste caso a mulher teria alugado o seu corpo (nunca vendido o seu corpo). E não teria fornecido serviço algum. Este tipo provavelmente faria um melhor investimento num brinquedo como a Fleshlight! :-P
Penso que este tipo de cliente será uma minoria. A maioria quer "serviços" que colmatem carências que eles não conseguem satisfazer com as namoradas ou mulheres, ou sem ser pagando a alguém… Assim, a mulher cobra dinheiro por um serviço. Que, claro, envolve o uso do seu corpo. Tal como alguém usar os braços a trabalhar numa fábrica. É um serviço.

Eu não compreendo como pode alguém envolver-se sexualmente com um desconhecido ou com alguém por quem não sente nada. Só a ideia acho arrepiante. Independentemenete de ser um relacionamento de troca comercial ou uma one night stand reciprocamente gratuita. ;-) Mas isso é a minha opinião e as minhas preferências. Seria imbecil querer impô-las a terceiros. Eu acho que cada um tem o direito de fazer o que bem entender com a sua vida e o seu corpo. E prostituir-se é um direito.

Acho um drama horroroso o problema (crescente) do tráfico humano e do rapto de mulheres e crianças para trabalho escravo, nomeadamente de natureza sexual. Mas a solução (?) não pode passar pela restrição da liberdade individual e a imposição de valores "morais".

Não é porque há pessoas a trabalhar na prostituição que o fazem obrigadas e são escravizadas que se vai proibir a prostituição. Senão também deviam proibir a apanha de morangos e afins porque há trabalhadores a trabalhar em regime de enprisionamento e escravidão nalgumas quintas por essa Europa fora. Faz sentido este raciocínio?

Sabiam que há um Sindicato Internacional dos Trabalhadores do Sexo? E a fundadora é portuguesa. :-)