Gostar de estar na merda

Esta música dá-me arrepios. E adoro a série, “Grey’s Anatomy”.

Tropecei neste vídeo por acaso, estava no Hi5 da minha prima, que está no auge da juventude, com os seus quase-quase 17 aninhos. 🙂

Estar aqui a ouvir isto, a rever imagens familiares da série, invade-me um sentimento de tristeza, vulnerabilidade, helplessness, que me arrasta até à minha adolescência. E note-se que foi longa, precoce e prolongada. Acho que fui adolescente até ao fim da faculdade, ou seja até ao final de 2006. 🙂 Era assim que me sentia. Ainda me vejo um bocado como uma miúda. Tenho aspecto disso, até a voz. 😛 Só me apercebo que já não sou mesmo uma adolescente quando me encontro no meio dos verdadeiros adolescentes. Aí, reality settles in. E como estou contente de essa fase da vida (minha e dos que com quem convivo) já ter passado, e de lhe ter sobrevivido. Sobreviver é a palavra aqui, porque com tantos traumas, decepções, angústias, incertezas, inseguranças, é um milagre saírmos vivos da adolescência, mais ainda se o fazemos com algum equilíbrio emocional. 😛 No entanto, se sou adulta, não me sinto como pensava que um adulto se sentiria. Continuo com perguntas sem resposta, dúvidas, inseguranças, medos,… E fiz há uma semana 27 anos, quase trintona! 😛 Não houve nenhum clique automático de transição, sou eu na mesma, only older and with a longer history.

Eu sei que os meus “verdes anos” foram um período terrível emocionalmente (e olhem que a infância também não tinha sido um mar de rosas). Durante esses anos devorei infindáveis filmes românticos, absorvi e curti sessões de choro ou de simples lying around a ouvir baladas românticas ou depressivas, mostly both, absorta nos meus próprios sentimentos, nas minhas desilusões e traumas amorosos, nas minhas inseguranças de me achar uma merda, unattractive, dumb and unintelligent, nas frustrações de sociabilização e das tentativas de fitting in and searching for people and places where I could belong. I never did fit in, and those people and places never were. Bom, algumas, por breves períodos. Mas nem tudo é mau, daqui a uns dias comemoro 7 anos de vida partilhada com the person where I belong. 🙂 Ainda não encontrei a place to belong, mas sinto que as minhas loucuras sobre rodas me levarão lá, de uma maneira ou de outra.

Não tenho saudades de ser adolescente. Aquela cena de nos sentirmos sempre na merda, ansiosos com o futuro, inseguros de nós próprios em tudo, inexperientes em tudo, os desgostos de amor, amar quem não nos ama, os desencontros amorosos (estados de desenvolvimento, expectativas, diferentes), as criancices dos colegas e dos “amigos”,…

Agora já não curto fossas com banda sonora. Claro que isso não tem só a ver com o ultrapassar da adolescência, mas também com o facto de ter encontrado alguém que mais do que me dar aquilo por que desesperadamente ansiava – um companheiro na verdadeira acepção da palavra – veio provar que tal pessoa realmente podia existir. Até aí tudo o que via acontecer à minha volta, nos filmes, livros, etc, me levava a crer que o sexo masculino era formado exclusivamente por sacanas ou simples desligados emocionais. Com essa perspectiva, não havia esperança nenhuma de um horizonte onde surgisse alguém com quem eu conseguisse estabelecer aquela deep and strong connection de que sentia que precisava como se de um transplante vital se tratasse.

Naquela altura essas músicas lindas tristes eram uma constante. Era aquilo que eu queria ouvir. É um paradoxo, mas era o que me fazia sentir bem sentindo-me mal. Era estúpido, claro, uma pessoa quando está na merda procura sair dela, e não ir-se enterrar mais nela. Mas os adolescentes são uma raça esquisita de gente. 😉 Aquilo é como uma droga, pá. Ouvimos aquilo porque nos sentimos deprimidos porque ouvimos aquilo que é deprimente e por isso mantemo-nos deprimidos e por isso ouvimos aquilo porque nos identificamos. 😛

Actualmente, há muitas coisas que me angustiam, mas nada que se compare àqueles anos todos de blues. Finding love is so fundamentally important, significant, urgent!, that I can’t help feeling sorry for all those people who can’t seem to find it. And where do you find love? How? I’m not even talking about chemistry. I’m talking about the brain, the “heart”… Love is compatibility, same-levelness in understanding, being able to build stuff together: projects, dreams. Sometimes, or for some people, it just doesn’t work out. Maybe it’s bad luck, maybe it’s a lack of willingness to see what’s in front of us, or even an inability to build a relationship. I think many people browse through partners like zapping, perhaps a modern Relationship Attention Deficit Disorder of some kind?

Uma coisa boa de envelhecer e de ter uma história com muitos baixos (mesmo que internally fostered), é que sabemos reconhecer as coisas boas quando as vemos e quando as vivemos. Temos a sensibilidade para tirar um instante e inspirar esses pequenos momentos, saboreá-los e sentirmo-nos infinitamente gratos ao universo por essa pequena mas milagrosa dádiva. Por isso sofrer é tão importante no crescimento de uma pessoa. Ele dá a medida das coisas, a métrica da vida. Dá os pontos de referência. É o que permite apreciar as coisas boas. Dá-nos uma noção das nossas forças e das nossas fraquezas, torna-nos mais humanos para com os outros. Alguém que passa pela vida sem sofrer não vive. A vida é como o sinal do batimento cardíaco num monitor de um hospital: aos altos e baixos. If it’s flat, you’re actually dead.

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5 Responses to Gostar de estar na merda

  1. Internet Explorer 6.0 Windows XP

    Muito bom texto, honesto, sentido e muito bem expresso.

  2. Mozilla Firefox 2.0.0.11 Ubuntu Linux

    Obrigada. 🙂 É a melancolia destas músicas, dá-me para isto.

  3. Safari 523.12.2 Mac OS

    Como diz o outro:

    There’s the sweet, and there’s the sour. But sweet is never sweet without the sour.

  4. Mozilla Firefox 2.0.0.11 Windows XP

    Whow… Been there, done that, bought the T-shirt! 🙂

  5. Pingback: *sigh* at b a n a n a l o g i c

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