The big picture

Já enjoa esta psicose das pessoas com os perigos da internet para as crianças, dos predadores sexuais que, segundo a crença popular, usam este meio para conseguir abusar e violar mais criancinhas.

Segundo as estatísticas oficiais, em 2008 houve cerca de 1000 denúncias de abusos sexuais de menores investigadas pela PJ. No ano anterior tinha-se revelado que cerca de 50 % das queixas não configuravam nenhum crime (foram arquivadas). Assumindo o mesmo para 2008, temos praí 500 casos de abusos sexuais de menores efectivos. Destes, sabe-se que em 90 % dos casos o agressor é um homem da família da vítima, o que implica que não precisa de aliciá-la pela net, tem contacto directo (e confiança). Restam 50 casos de abuso sexual de menores em que o agressor pode ser um amigo da família, um professor, um padre, um amigo mais velho, ou um desconhecido que aborda a vítima pessoalmente ou que simplesmente a assalta, ou alguém que a aborda inicialmente pela net – como se distribuirão estes 50 casos por estas várias hipóteses?

O stranger danger está a atrofiar as crianças de hoje em dia, que vivem emprisionadas dentro de 4 paredes, muros e automóveis, sem desenvolver autonomia e curiosidade, e desconectadas da sua comunidade e do meio em que estão (des)inseridas. E esse mesmo medo irracional e empolado está a servir de pretexto para restringir as nossas liberdades civis a nível de privacidade e acesso a conteúdos online. Isto não é admissível. Isto não é inteligente.

Quem ganha com isso? Quem perde? Daquelas 500 crianças e adolescentes, Entre 450 e 500 continuarão a ser vítimas de abusos sexuais num mundo em que os pais não os deixam explorar o mundo online da mesma maneira como já não os deixam explorar o mundo offline. Os abusos sexuais continuarão e os abusos morais serão aceites como uma necessidade, uma inevitabilidade.

Esta entrada foi publicada em política, sociedade com as tags , , , , , , . ligação permanente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.