Analisar ciclovias

Em Maio eu e o Bruno fizémo-nos à estrada, em bicicleta, daqui de Porto Salvo até Lisboa, para irmos conhecer algumas ciclovias que estavam a ser finalizadas ou estavam já concluídas. E gravámos vários troços da viagem, incluindo um comparativo ciclovia vs. estrada no troço Monsanto-Campolide. Claro que, para não variar, esses vídeos ficaram em águas de bacalhau porque não temos tempo para os editar e transformar em algo útil. Ou mesmo que simplesmente giro. 🙂

Há cerca de uma semana fui repescá-lo, o Bruno editou-o e publicou-o no YouTube, para servir de case study numa discussão sobre ciclovias na mailing-list da MUBi. Como a conversa morreu após o meu último (e mais gráfico) e-mail, resolvi não o deixar enterrado, talvez assim encontre terrenos mais férteis de discussão e debate…

Experiência tosca (única e não-científica) de avaliação comparativa da ciclovia Monsanto-Campolide:

De todo o percurso patente no vídeo, foquemo-nos na rotunda:

rotundacampolide2

Um ponto de conflito é um ponto onde diferentes fluxos de tráfego se cruzam, logo, que introduzem obstáculos no percurso, diminuindo a velocidade média da viagem, e são um foco potencial de acidentes.

Os pontos vermelhos e azuis escuros são pontos de conflito muito óbvios e localizados, e onde o ciclista é que tem que ceder passagem. De notar que o 4º ponto azul, dentro da rotunda, é um potencial ponto de conflito um pouco mais difuso (quem entra na rotunda tem que ceder passagem ao ciclista, mas uma vez dentro da rotunda o ciclista tem que ceder passagem ao mudar da via da esquerda para a da direita, para sair da rotunda).

Os pontos rosa são pontos de conflito envolvendo peões, e onde o ciclista deve ceder passagem aos peões (passadeira e passeio).

Quanto à escolha do traçado na rotunda, acho esta imagem interessante, mas claro que discutir isto sem a participação de quem desenhou e de quem implementou as coisas é sempre pobre. Há condicionantes e opções que tiveram que ser tomadas e que ajudarão a explicar e/ou justificar algumas coisas e que nós desconhecemos.

Voltando ao percurso completo, façamos a comparação para a ligação dos mesmos 2 pontos. Volto a enfatizar que não, isto não pretendeu ser uma experiência científica, é apenas um teste tosco. Mas acho que dá para ilustrar pontos importantes.

CICLOVIA vs. ESTRADA:

  • Tempo: ~3 min vs. ~2 min
  • Distância: não medimos, mas o percurso pela ciclovia é cerca de 100 metros mais longo
  • Pontos de conflito: 10+3 vs. 8+2

Ou seja, imaginem que querem usar a bicicleta para ir para o trabalho, ou outro sítio num contexto em que a velocidade é mais importante do que a fruição da experiência da viagem em si. Usando estes valores poderíamos ter algo como 30 minutos pela ciclovia e 20 minutos pela estrada. O que significa que, optando pela ciclovia, a pessoa gasta MAIS tempo na viagem para supostamente circular em maior segurança mas na realidade está MAIS exposta ao risco de acidentes do que se fosse na estrada. De notar que uma ciclovia no passeio aumenta ainda o risco a que os peões estão expostos ao circular no mesmo.

Contudo o que muita gente defende é que não interessa se estamos a colocar as pessoas numa situação efectivamente MAIS perigosa desde que elas se sintam mais seguras. Ou seja, acham bem criar uma espécie de ratoeiras para ciclistas (aumentando a segurança subjectiva enquanto diminuem a segurança objectiva).

Não se esqueçam que as ciclovias são (ou poderão ser) criadas com (entre outras) a intenção de atrair ciclistas de qualquer nível de aptidão. A ideia é baixar o nível de exigência nas competências do ciclista para ele poder navegar na cidade e assim usar a bicicleta quando antes não o faria porque se sentiria mal preparado ou vulnerável para navegar na rede viária normal. O problema, grave, é que a navegação nas ciclovias exige MAIS aptidão, e não menos, porque estas tornam o sistema viário mais complexo, e multiplicam os pontos a que os condutores (de bicicletas e de automóveis) e os peões têm que prestar atenção, o que multiplica as oportunidades para as coisas correrem mal.

E a pergunta que interessa aqui é: “o que é que eu faria diferente?“. Pelo menos para que fosse possível continuar a incentivar pessoas sem formação e/ou sem capacidade para usarem a rede viária normal a optarem pela bicicleta.

Há pelo menos duas coisas fundamentais que me ocorrem agora:

    1) reduzir o número de pontos de conflito.

    O exemplo dado na foto do “Detesto a minha burra” faz justamente isso na rotunda.

    2) aumentar a segurança do ciclista ao passar por cada um desses pontos.

    Isto implica tratar esses cruzamentos de modo a obrigar quem circula na rede viária a ceder SEMPRE a passagem a quem circula na ciclovia (no caso português isso implica sinalização vertical dado que nem quando se apresentam pela direita os ciclistas têm prioridade na passagem pois são discriminados negativamente no Art. 32 do CE). E faria a ciclovia nivelada com a estrada, para vincar que se trata de um cruzamento de 2 vias e não um atravessamento de 1). Se calhar, para reforçar essa sinalização e proteger ainda mais o ciclista, até faria com que a ciclovia fosse sobreelevada ao longo dos cruzamentos. Isto tornaria a deslocação do ciclista confortável, facilitar-lhe ia a tarefa de ver e ser visto, e funcionaria como uma lomba de acalmia de tráfego para obrigar os condutores de automóveis a abrandar dando-lhes tempo para ver os ciclistas a aproximarem-se e para parar.

Mas este tipo de ciclovia se calhar não interessa a muita gente, porque diminuiria efectivamente a competitividade do automóvel na mesma medida em que aumentaria a da bicicleta (a sinalização só prejudicaria o fluxo automóvel quando houvesse ciclistas, pelo que se houver poucos não afecta muito, e se houver muitos, bom, também têm direito a passar a a chegar depressa onde querem; já as ciclovias sobreelevadas em lomba já prejudicam o fluxo automóvel mesmo quando não há ciclista a passar…). E esta ciclovia conseguiria fazer isto oferecendo benefícios reais ao ciclistas em termos de segurança, conforto e eficiência e não o contrário.

Será que isto não aumentaria a massa crítica de ciclistas?

Será que isto não aumentaria o shift modal do automóvel para a bicicleta (em vez de ser essencialmente dos TP e do andar a pé)?

E os custos de construir uma ciclovia assim não serão muito superiores ao de construir uma ciclovia como as que temos, presumo. Nem demoraria muito mais tempo.

Claro que os novos ciclistas atraídos para a bicicleta continuariam a não saber conduzir fora das ciclovias nas estradas e ruas não “traffic calmed“, o que numa cidade sem muito espaço nas ruas para ciclovias e sem dinheiro para luxos é um ponto relevante, parece-me.

É nossa responsabilidade enquanto ciclistas ter um olhar crítico e uma voz audível e construtiva na avaliação das infraestruturas construídas em nosso nome e supostamente para nos servir. Para isso temos que estudar, pensar, conversar, debater. Até o cérebro doer.

Agora vejam outros vídeos comentados, mas da Holanda.

Este post não é sobre as ciclovias de Lisboa, é sobre as ciclovias de Portugal, apenas escolhi este exemplo porque era aquele para o qual até tinha um vídeo. Mas os resultados não seriam muito diferentes se isto fosse replicado a outras ciclovias por aí.

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7 respostas a Analisar ciclovias

  1. Catarina diz:
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    O vídeo mostra bem como as ciclovias em Lisboa estão mal projectadas.
    Como peão e ciclista não concordo com a estrutura: estrada/peão/ciclovia
    Vejo melhorias em ter: estrada/(estacionamento se necessário)/ciclovia/peão
    Não concordo também que as ciclovias em Portugal tenham a tendência de parecer um trajecto de “brincadeira para crianças”.

    Só uma nota é que não fazem a sinalética com os braços quando vão mudar de direcção (acontece por duas vezes na rotunda e mais à frente ao mudar para a esquerda). Mas não isso que está em causa e é uma excelente mostra da ciclovia (de notar também no desrepeito pelos peões por parte do pesado a certa altura do trajecto). Também pela pequenez do trajecto acho um desperdício de recursos por parte de quem a construiu (a ciclovia), ela continua?! Qual a vantagem de ter 4 minutos de ciclovia?!

    Boas pedaladas.

  2. Mozilla 1.9.1.7pre Ubuntu Linux

    Olá Catarina,

    Quanto à tua nota, sim, não sinalizei as duas mudança de direcção na rotunda nem depois para virar à esquerda no final. Mas não foi por esquecimento ou negligência, foi porque não fazia sentido sinalizar. 🙂

    Os sinais servem um propósito: comunicar. E têm um custo: diminuem o teu controlo da bicicleta (quando tens o braço no ar não tens a mão no guiador nem os dedos nos travões, não é a mesma coisa que fazer o pisca no carro). Se não houver ninguém a quem comunicar as minhas intenções (o que pude constatar quando olhei para trás na via em que ia entrar, isso sim, essencial) e se não houver risco razoável de tal comunicação ser relevante para alguém e que eu possa não estar a ver, escuso de sinalizar. E nem sequer é uma infracção. O nosso CE não prevê sinalização de manobras por parte dos ciclistas, pelo que também a legislação considera estes sinais uma cortesia e não uma obrigação. 🙂 Isto é o tipo de coisas básicas mas em que muitas vezes nem pensamos e que aprendemos quando temos formação. 😉

  3. Miguel Cabeça diz:
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    Catarina,

    Este trecho de ciclovia continua por um lado (pelo início do vídeo) pela radial de Benfica até ao fim da radial, e por outro (no fim do vídeo) segue acima, passando por uma ponte pedonal e ciclável pela Av. Calouste Gulbenkian, terminando no parque da justiça, mesmo no topo do Parque Eduardo VII. Não há ligação (ainda) ao Parque Eduardo VII.

    O troço da ciclovia que segue pela radial de Benfica tem uma ponte pedonal e ciclável para atravessar para o outro lado e pode vir a ter ligação com a ciclovia de Benfica/ Telheiras / Campo Grande.

    Muito haveria por dizer destas implementações, mas deixo apenas dois comentários: um positivo e outro negativo:

    Negativo) A ciclovia da Radial de Benfica é um horror, há zonas que quase não cabe um ciclista sozinho quando mais dois (um em cada direcção) de tão estreito que ficou. Se de um lado temos Monsanto e a sua frescura verde, do outro lado há um ruído esurdecedor que torna esta viagem absolutamente desagradável. No dia em que a fizemos, havia lixo, pedras, vidros e restos de plástico de automóveis na via, já que esta leva com as escorrências da radial e não foi (não é?) limpa convenientemente.

    Positivo) O troço que liga Campolide ao topo do Parque Eduardo VII está muito bonito e é extremamente agradável como passeio e certamente como atalho para quem necessite de o fazer num percurso mais utilitário. É um exemplo *excelente* de uma ciclovia bem feita e adequada ao ambiente em que se insere e ao traçado do percurso escolhido. É mais fácil fazer na direcção Parque Eduardo VII -> Campolide do que ao contrário 😛

    Cumprimentos

    Miguel Cabeça

  4. Catarina diz:
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    Tudo bem, pensava que o código “obrigava” a bicicleta a mostrar as manobras porque refere ao condutor bla bla bla e não ao veículo mas não o tenho lido ultimamente, por isso não quero entrar por aí, posso dar a minha opinião que acho importante porque nunca se sabe quem precisa de saber o que vamos fazer e… ficava bem no filme ahahah
    Quanto à diminuição do controlo isso varia de pessoa para pessoa e também do tipo de bicicleta, gosto bastante de andar sem as mãos no volante 😉 especialmente quando está frio e me esqueci das luvas.
    Continuação de bom trabalho.

  5. Ana diz:
    Internet Explorer 8.0 Windows Vista

    Excelente análise, Ana. Ficamos à espera dos outros vídeos. Só tenho pena que isto não seja enviado à C.M.L. Nunca se sabe, pode ser que pensem em bocadinho e aprendam…

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