A dignified way out

Há dias vi o documentário sobre a EXIT, na RTP2.

Do site deles:

«The World Federation, founded in 1980, consists of 38 right to die organisations from 23 countries. The Federation provides an international link for organisations working to secure or protect the rights of individuals to self-determination at the end of their lives.»

Foi interessante acompanhar um pouco do trabalho desta associação. É pesado. Mas é tão importante! Fico tão feliz por saber que há pessoas que se sujeitam a este desgaste a bem de terceiros! É preciso muita abnegação, aguentar aquele fardo emocional para ajudar alguém que não nos é – à partida – próximo, da nossa família, amigos,…

Há demasiada procura para a oferta deles. E muita procura de pessoas de outros países, onde a eutanásia/suicídio assistido [já agora, qual a diferença, exactamente?] não é permitida pela lei, e que a associação não pode ajudar…

Há tanta gente a sofrer tanto… Não consigo compreender aqueles que negam aos outros o direito a morrer, a dispôr da própria vida e do próprio corpo, à auto-determinação. Geralmente também são contra o direito a abortar uma gravidez. Embora possa tentar compreender a posição deles neste caso – porque envolve um outro ser vivo em desenvolvimento – não posso aceitar a sua posição quanto à eutanásia, porque só envolve a pessoa em causa. Haverá algo mais humilhante e degradante do que ser obrigado a viver uma vida que não se quer viver? É de um egoísmo e de uma falta de compaixão e de empatia que me choca. Ia dizer que é desumano, mas não, é totalmente humano, só estes são capazes de actos tão cruéis.

Hoje li no Público a notícia de que 40 % dos 450 médicos oncologistas inquiridos num estudo defendem legalização da eutanásia. Aaah, mais algum alento na inteligência e compaixão das pessoas neste país!… Nomeadamente, dos médicos. Já na campanha do referendo sobre a despenalização do aborto fiquei contente pela existência do Movimento Médicos pela Escolha, esta notícia vem reforçar a confiança na evolução das mentalidades.

Embora 40 % sejam pelo direito a, só 20 % admitem praticar a eutanásia caso esta seja legalizada. Não interessa, tal como com o aborto e a grande quantidade de médicos e instituições que farão objecção de consciência, o importante é que quem execute estes procedimentos o possa fazer dentro da legalidade, e da dignidade…

«(…)Rui Nunes, presidente do Serviço de Bioética da Faculdade de Medicina [do Porto, que realizou o estudo], manifestou a sua preocupação pela percentagem de médicos que é favorável à eutanásia e ao suicídio assistido, o que, em sua opinião, reflecte “uma mudança na forma como estas questões fracturantes passaram a ser encaradas”. “O resultado evidencia que há cerca de 40 por cento dos médicos oncológicos que antevêem legalizar a eutanásia em Portugal e isso é, naturalmente, um resultado preocupante, dado que a ética e a deontologia médicas tradicionalmente são contra esta prática no nosso país”, declarou Rui Nunes.

Contrário à legalização da eutanásia, mas favorável à realização de um referendo, “precisamente por se tratar de uma questão fracturante”, aquele professor observa que a legalização não é a solução. “A nosso ver a resposta não é legalizar a eutanásia é ver porque é que as pessoas pedem a eutanásia e tentar responder a isso”, disse ao PÚBLICO Rui Nunes, sublinhando que é preciso reflectir por que é que “uma franja tão significativa da população médica é favorável à legalização da eutanásia”

Sou totalmente a favor da aposta e expansão dos cuidados paliativos, mas estes têm os limites da medicina. Esta não consegue evitar todas as doenças, não consegue curá-las a todas e nem sequer consegue ao menos livrar completamente os doentes (terminais ou não) da dor. Por melhores que sejam os recursos materiais e humanos disponíveis. Vai sempre haver alguém para quem a medicina não tem resposta ou solução para uma vida condigna. Esse alguém deve ter o direito de escolher continuar e aguentar ou ficar por ali. Esta questão “fracturante” não deve ser decidida em referendo, porque implicaria que parte da população poderá impôr à outra um código de conduta para a sua vida pessoal que só ao indivíduo diz respeito. Tal como poderia ter acontecido no referendo à despenalização do aborto, mas ainda pior, porque aqui não há terceiros envolvidos e afectados pela decisão da pessoa.

«“(…)nada se fizer, temo que estes 40 por cento sejam amanhã 60 ou 70 por cento e depois aí a população vai começar a aderir mais a esta causa”.»

Espero bem que sim, que adira e se dê um salto civilizacional importantíssimo.

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