Info-escravatura

Ontem eliminei todas as minhas subscrições de feeds RSS. Acabaram-se os 30 posts diários do Boing Boing, os 15 do Treehugger, 1 ou 2 do Commute by Bike, meia-dúzia do Diário Ateísta, 1 ou dois do Inhabitat, outra meia-dúzia do Popgadget,… De seguida cancelei também as minhas subscrições nas mailing-lists da Quercus (2) e do GAIA.

Porquê? Porque me consumiam diariamente demasiado tempo. E muitas vezes sentia-me na obrigação de ver tudo. A maior parte das coisas no Boing Boing não me interessavam, nas listas ambientalistas também não (eventos e formação a que não quero ou não posso ir, notícias que só me entristecem e me dão um sentimento de impotência,…).

Passo a usar os links no blog como plataforma de websurfing. Em vez de receber sempre as últimas, de vez em quando espreito os sites e faço o update devido. Assim consigo gerir melhor o meu tempo e rentabilizá-lo melhor. E sem me sentir frustrada por não conseguir ler e assimilar tudo o que recebo ou que gosto de seguir…

Não gostei do mail automático do unsubscribe do GAIA:

«A abandonar o barco do ambiente? Onde ficou a tua vontade de ver um mundo melhor?

Volta sempre! 🙂 »

Achei estúpido, desnecessário e arrogante. Não é por subscrever a lista que estou no barco do ambiente, nem que tenho mais vontade de ver um mundo melhor. O mundo está cheio de gente a explorar outras, e de gente a dar cabo das coisas, sejam man made ou naturais. Saber que a Coca-Cola está a arrasar os recursos hídricos ao pé da sua fábrica no Nepal, ou coisa que o valha, não implica que eu possa ir já a correr fazer alguma coisa para acabar com aquilo. Receber este tipo de notícias de coisas e sítios distantes que ficam depois a afligir-me quando nem no meu próprio país eu posso fazer alguma coisa de relevante… Tenho que aprender a desligar algumas coisas, para ter tempo, energia e vontade para me dedicar a outras que produzam resultados palpáveis. Nomeadamente para efectivamente fazer alguma coisa para ver esse tal mundo melhor.

No outro dia vi um documentário sobre o comércio justo (e não só) de café. Já conhecia o Comércio Justo, embora nunca tenha comprado nada (e ainda não visitei nenhuma loja), excepto um chá uma vez numa feira qualquer na FIL. Gostei do documentário, foi interessante e educativo. Acho as coisas do comércio justo um pouco caras. O problema é que nós estamos a habituados a um nível de vida insustentável (os preços não incorporam custos ambientais e sociais), passar a comprar mais coisas pelo comércio justo implicaria uma perda de rendimento, sobraria menos dinheiro para outras coisas. Ninguém que abdicar de melhor qualidade de vida (poder aceder a mais bens e serviços) quando a tal não se vê forçado. Nós não vemos as pessoas exploradas, nem as terras transformadas em desertos, nem os rios e aquíferos a ficarem contaminado ou secos, nem vemos coisas como Bhopal. No fundo, é como a co-incineração ou as lixeiras. Desde que não sejam no nosso quintal, não nos preocupamos em fazer menos lixo nem em dispose of it properly no fim.

Uma das coisas que mais me frustra é não saber a idoneidade das empresas e das lojas a que compro coisas. Houve uma altura em que boicotei os produtos Nike. Li acerca de coisas muito reles (ambientais e sociais) que eles faziam e não quis compactuar. O mesmo com a MacDonalds. E eu gostava dos ténis da Nike, eram das minhas marcas principais quando lá tinha que ir às malfadadas compras. Já a MacDonalds não me fez mossa nenhuma. Lá optei por uns ténis de outra marca nessa altura. Mais tarde soube que as fábricas onde a Nike subcontratava eram muitas vezes as mesmas onde outras marcas também subcontratavam, tipo Reebok, Adidas, sei lá. Senti-me estúpida. Abandonei o boicote. Agora faço o contrário, se for para fazer escolhas dessas opto pela positiva, isto é, compro qualquer coisa ali ou ali porque sei que nesse sítio fazem isto ou aquilo e agem assim ou assado. Porque o principal problema nestas coisas do consumo e das opções que com ele fazemos (e respectivos sinais económicos e políticos subjacentes) é que o facto de sabermos determinada coisa negativa ou até inaceitável por parte de determinado fabricante ou determinado serviço (loja, restaurante, whatever) e boicotarmos a empresa em causa, não significa que estejamos a fazer uma coisa boa, ou evitar algo mau, pelo menos enquanto não tivermos garantia de que o sítio onde passamos a obter aquele produto ou serviço não faz o mesmo (ou pior).

Enquanto não houver uma espécie de autoridade fiscalizadora global que me dê info detalhada e fidedigna sobre todas as marcas ao meu dispôr, como posso ser uma consumidora mais consciente? Sei lá se ao fugir da Zara por pôr pessoas a trabalhar em navios em alto mar para fugir às leis laborais e assim explorar as trabalhadoras não acabo por ir dar o meu voto-compra a uma Benetton que maltrata as ovelhas na produção de uma lã xpto? Se evitar o Mac e for para o Burguer King ou uma hamburgueria qualquer “local”, como sei que estes actuam de forma mais responsável? Se ao optar por dar mais dinheiro por um produto ou serviço mais caro porque estou a pensar que provém de uma empresa mais justa para com os seus trabalhadores ou mais responsável para com o ambiente, e depois descubro que a diferença de preço não equivale a maior eco-socio-justiça?

Consumir dá-me verdadeiras dores de cabeça e dores de alma. Penso em todas as coisas erradas e más que o meu dinheiro pode estar a propagar e a perpetuar sem que eu tenha noção, ou sem que eu possa decidir em verdadeira consciência. Porque eu não tenho a informação necessária! Eu quero poder privilegiar empresas, serviços, processos amigos do ambiente e amigos das pessoas, mas o seu desempenho nestes parâmetros não vem afixado na montra…

Era tão bom que fôssemos todos honestos e justos, simplesmente. Isto de ter que estar a descortinar é cansativo num mundo com tantas opções e tantas exigências.

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